domingo, 16 de maio de 2010

As Origens do Neo-Druidismo: Entre Tradição Céltica e Pós-Modernidade texto de Ana Donnard



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Revista de Estudos da Religião - REVER
ISSN 1677-1222

Pós-Graduação em Ciências da Religião - PUC-São Paulo





Ana Donnard[*]
Resumo

O fenômeno das seitas e pseudo-religiões não é novo. A pós-modernidade apresenta, no entanto, uma nova e ampla diversificação de formas e conteúdos, emergentes de uma re-configuração de fundo antigo através de heranças medievais. O neo-druidismo se insere nos fenômenos sociais pós-modernos, mas é também parte importante do Celtismo que ambientou a historiografia e a literatura no final do séc. XVIII dezoito até o final do séc. XIX. Neste artigo apresentamos brevemente o neo-druidismo britônico e sua marca distintiva em relação a outras vertentes modernas e pós-modernas. Para tanto, discutimos: 1) Os druidas na Antigüidade e os druidas na modernidade 2) Como reconstruir um Druidismo extinto com a cristianização 3) Como legitimar uma herança druídica para as culturas célticas através de uma tradição bárdica. 4) o Druidismo na Bretanha armoricana e no País de Gales.

The Origins of Neo-druidism: between Celtic Tradition and Post-modernity

Abstract

The appearance of sects and pseudo-religions is not an entirely new phenomenon. However, post-modernity presents new and widely diversified forms and contents, which emerge from a re-configuration of the ancient basis through medieval legacies. Not only is neo-druidism included in post-modern social phenomena, but it is also an important part of the Celticism, that oriented historiography and literature from the late eighteenth to the end of the nineteenth centuries. In this paper, I offer a summary of Brythonic neo-druidism and its distinctive character in relation to other modern and post-modern neo-paganisms. Therefore, I discuss: 1) The druids in antiquity and modernity 2) The reconstruction of some druidic practices and beliefs that were extinguished by Christianity 3) The use of the Bardic tradition to legitimise the druidic heritage in Celtic cultures 4) Neo-druidism in Brittany and Wales.

Introdução

A diversidade de fenômenos religiosos, ou pseudo-religiosos, com a qual nos deparamos hoje na atual pós-modernidade, não só nos coloca diante de várias dificuldades de orientação metodológica para a análise destes fenômenos, como nos exige uma cuidadosa elaboração de argumentos, pois o terreno é extremamente fértil para as mais engenhosas imaginações como é também freqüentemente povoado de ideologias que estão longe de promover uma serena análise histórica, sociológica e concreta dos fatos. E ainda, como se não bastasse a dificuldade da tarefa, não raro uma critica ou estudo de caso é objeto de aguerridas reações daqueles que se vêem tocados na sua mais alta e magnânima credulidade, agredidos que se sentem pelas vias do racionalismo 'impuro' que os condena à simples condição de falsários ou neuróticos candidatos da mais alta psicopatia.[1]

A condenação de seitas tem se feito organicamente hoje em alguns países europeus que se viram, diante da proliferação de grupos das mais variadas orientações, obrigados a criar mecanismos legais que pudessem legitimar ações jurídicas contra grupos sectários, possibilitando assim um controle maior do Estado em relação a estes grupos que são dificilmente classificáveis, tamanha a variação e os constantes desdobramentos em que se inserem. Esses grupos oriundos de sociedades secretas ou sectárias ou ainda de associações mais ou menos visíveis na sociedade sofrem dissidências sistemáticas, desdobrando-se em várias outras ramificações, fruto mesmo de suas características intrínsecas de afiliação e alianças decorrentes de estruturas muito pouco sólidas e de tradições inventadas ao sabor das necessidades mais imediatas.

A lei da liberdade de culto oferece livre constituição de grupos que se coordenam em diferentes territórios. A proliferação é de tamanha ordem que se lançou na França a lei de proteção contra o sectarismo, e diversas organizações não-governamentais se encarregam de oferecer suporte psicológico e jurídico a pessoas que se encontram em situação de risco - psíquico ou físico - decorrentes de experiências no seio desses grupos ou seitas.[2] Sem dizer que uma das maiores preocupações do governo francês se refere à camada jovem da sociedade que é facilmente assimilada por estes discursos que descrevem um mundo fantástico e surpreendente, oriundos, em sua maioria, do americanismo que impregnou toda uma geração desde os anos oitenta e que segue até hoje de forma universal.[3]

Esses fenômenos sectários, não sendo uma exclusividade da pós-modernidade, já foram objeto de inúmeros trabalhos de historiadores e antropólogos no sentido de identificar a influência das sociedades secretas ou seitas que se constituíram desde a Idade Média até os dias de hoje como elemento orgânico de nossas sociedades, estejam elas mais ou menos ocultas diante de nossos olhos. A proliferação de seitas e pseudo-religiões de toda espécie não é simplesmente uma continuação de uma herança antiga e medieval, mas inscreve-se em uma nova fenomenologia, ainda que estas novas vestimentas se constituam com o mesmo tecido de conjecturas e propostas para seus membros potenciais: aquisição da felicidade terrena por novas vias da revelação através de tradições que só podem ser conhecidas por pessoas com características especiais e singulares. Mas a gama de critérios é tão assustadoramente variada que nos impedem qualquer síntese. Uma breve visita à Internet poderá dar uma idéia a qualquer neófito no assunto sobre a complexidade de fenômenos a serem analisados. No Brasil, a própria Igreja Católica se vê diante de novas formas de cultos, particularmente nas emotivas missas dos carismáticos ou dos novos sacerdotes brasileiros como Padre Marcelo e outros. Neste sentido, podemos avaliar o impacto da modernidade e suas conseqüências até mesmo em tradições e religiões milenares. O fenômeno das seitas e pseudo-religiões não é novo, o que é novo é a sua amplitude e a diversificação de suas formas e apresentações.

Por todos os países se espalham diferentes vias de auto-conhecimento, curas alternativas, contatos extraterrestres, cultos xamânicos, enfim, seria inoportuno aqui enumerarmos todas as vertentes que se espalham hoje no mundo, seja através do neo-paganismo, seja através de esoterismos cabalísticos ou influências orientais diversificadas, recuperação de forças telúricas da natureza, incluindo movimentos de defesa da natureza ligada a partidos políticos de orientação ecológica.[4] Nosso interesse será o neo-druidismo que se insere nestes fenômenos sociais modernos e que detém uma configuração específica porque é parte do Celtismo: gênero de discurso identitário e nacionalista que ambientou a historiografia e a literatura durante o final do séc. XVIII, se consolidou no séc. XIX e se estende até os dias de hoje, sobretudo nos discursos dos neo-druidas bretões, que são o objeto de nosso interesse.

Druidas na antiguidade, Druidas românticos e Druidas na pós-modernidade

Druidas e druidismo - o segundo termo é um neologismo e implica uma relação temporal e causal. Estamos muito longe dos druidas antigos, embora o “druidismo” seja a evocação de uma filiação antiga.[5] O termo druida é de etimologia celta, não tendo nenhum correlato em língua grega senão o termo com o qual os antigos os identificaram em primeira instância - filósofos - pelo qual podemos avaliar a importância desta classe na antiguidade.[6] O termo grego δρνιδης é um empréstimo ao celta, empregado por Aristóteles. Os gregos, na tentativa de explicar o nome indígena do sacerdote-druida celta, relacionaram o nome com o culto ao carvalho, mas, etimologicamente, druida quer dizer aquele que tem o conhecimento. César, que testemunhou o emprego do nome na Gália, usa o etnômio Celta, Celtae (em sua língua nacional eles se chamam Celtas) e faz menção aos druidas (De Bello Gallico VI, 14, 21), sendo a forma por ele atestada correspondente às formas irlandesas do antigo irlandês druí/druíd.[7] As fontes clássicas são lacunares e muito pouco se sabe dos druidas através delas. Temos conhecimento apenas de um druida histórico: Diviciacus - o Eduano, personagem bem conhecido por meio de César. Todos os outros citados ficaram anônimos.[8] Uma outra referência aparecerá em Ausonio, poeta latino: Phoebicius, guardião do templo de Belenus, um homem da raça dos druidas da Armórica.[9]

A menção da Armórica como origem deste personagem citado por Ausonio merece atenção. Os romanos fizeram várias referencias à Insula Sena e Pomponius Mela faz a descrição da famosa ilha de Sena, diante do território dos Osímios, na Armórica. Nela, virgens chamadas de Gallizenae, se dedicavam a um oráculo de uma divindade gaulesa. Os Osímios fazem parte dos quatro povos celtas que habitaram o território que é hoje a Bretanha francesa, na península armoricana, nome de origem antiga que significa país do mar - Armor. Ainda hoje a denominação é usada para diferenciá-la da antiga Bretanha insular, atual Inglaterra, que para os gregos e romanos se chamava Britania. César assinalava o fato de que os druidas mantinham um centro de educação na Bretanha insular, para onde todos os postulantes eram conduzidos a fim de se instruírem na ciência druídica. Não se pode negar as evidências de que, juntamente com a Gália continental, a Bretanha peninsular armoricana e a Bretanha insular foram, durante a antiguidade, território de druidas. Mas as evidências são muito mais literárias do que arqueológicas. E, mesmo na Irlanda, de onde nos chegaram relatos de druidas legendários, nada pode se saber de concreto a seu respeito no campo da arqueologia.[10] No continente, na península armoricana, como na ilha britânica e na Irlanda, todos os dados são interpretativos: nenhuma inscrição, nenhuma materialidade pode ser diretamente e concretamente identificada com o sacerdócio do druida sem que se construa várias conjecturas. Os sítios arqueológicos dos santuários célticos apresentam obviamente vestígios de rituais, mas a cosmogonia ou o universo mitológico ao qual se dirigiam estes rituais não pode ser verificado, a não ser de forma fragmentária, e a figura do druida não aparece.[11]

Não se poderia imaginar um sacerdócio de tão grande importância sem um panteão mitológico capaz de legitimar as relações divinas dos druidas com o mundo dos homens. A arqueologia Hallstatiana revela vestígios de uma mitologia anônima, deuses locais eleitos por tribos de acordo com as situações vividas pelos grupos sociais que os elegem. Após o período Hallstatiano verifica-se uma grande evolução artística e, através da iconografia céltica, poder-se-ia então reconstituir um sistema de fundo mitológico comum e, no caso que nos interessa, reconhecer e identificar o sacerdote ou o druida. No entanto, a ausência de registros escritos reduz toda essa gama de representações da Arte Lateniana ao mecanismo de interpretações hipotéticas.

Os celtas não identificaram suas divindades através da escritura, como fizeram os gregos e os romanos. Algumas raras inscrições do período pré-romano são provenientes do contato com o Mediterrâneo e todas a figurações acompanhadas de inscrições são do período romano. Os registros escritos de ordem mágico-religiosa atestam práticas marginais, não revelando nada ou quase nada das divindades celtas.[12]

Esta é a razão de sermos tão devedores de César para a identificação, ainda que parcial, de uma teogonia celta. Ao descrever os atributos dos deuses dos gauleses - que não são mencionados em seu nome indígena, mas identificados com a denominação romana - César nos fornece o mais precioso: a descrição dos atributos relacionados a esses deuses. As questões de ordem sócio-política, relativas a uma situação de dominação e submissão, estariam mais próximas de uma negociação de poderes e deveres do que propriamente de um sincretismo religioso capaz de identificar par a par os deuses de um e outro panteão - além de estarmos, nesse âmbito, sujeitos a interpretatio romana.[13] Mesmo que o paralelismo com o panteão greco-romano seja capaz de identificar uma mitologia celta, muito ainda não sabemos sobre a sua cosmogonia e os aspectos religiosos que envolviam o culto a aos deuses.

Devemos, além disso, levar em consideração o fato de que os sistemas religiosos em contraposição - greco-romano e celta - são divergentes, fazem parte de um outro sistema de pensamento e de representação e, ainda, de uma outra esfera de civilização que nem sempre possibilita a superposição para estudos comparativos, ainda que alguns elementos sejam de ordem similar.[14]

Entretanto, as fontes documentais da literatura antiga não deixam duvidas quanto à existência desta classe sacerdotal e sabe-se que foram até mesmo uma ameaça ao poder de Roma, que trata de proibir o druidismo (Tibério e Cláudio) para salvaguardar sua autoridade. Verificando, portanto, as dificuldades da arqueologia diante das possibilidades de interpretação dos dados materiais religiosos celtas, pelas razões que assinalamos, poderíamos ser obrigados a relegar os druidas históricos a um silêncio ainda mais cruel do que aquele que lhes foi imposto por Roma, pois a figura do druida histórico, que poderia ser atestado pela arqueologia, resulta em mistério.

Em contrapartida, a literatura antiga não cessa de repertoriar comentários a um sistema religioso de alta complexidade, bem como a importância desta classe para a coesão de uma civilização que se estende, segundo as fontes greco-romanas, do centro do continente europeu até as ilhas do norte. Os druidas exerceram, segundo as fontes clássicas, o papel de detentores de um poder sacerdotal, aliando, através de um sistema religioso, as tribos do espaço céltico insular e continental que nunca formaram, no entanto, um Estado centralizado. O desaparecimento dos druidas entre o final da antiguidade e o inicio da antiguidade tardia repousa também em mistério. As fontes clássicas cessam de repertoriar comentários a respeito desses sacerdotes, antes freqüentemente referenciados, para silenciar totalmente. O silêncio druídico da antiguidade será desfeito séculos mais tarde, cerca de oitocentos anos depois, pela escrita dos filid irlandeses e pelos bardos bretões, que fornecerão aos arqueólogos e aos historiadores a possibilidade de interpretar os fragmentos materiais de uma religião celta. O silêncio dos druidas é quebrado na era medieval e ele ressurge como um fantasma nas brumas do espaço céltico atlântico, não sendo um retorno insípido, mas, infelizmente, para tantos românticos em busca do druida histórico, muito se deixou a desejar.

O druida ressurge no período medieval, porém dentro do contexto da transmissão de um fundo de natureza épica e mitológica. Os arcanos da religião não são revelados. O druidismo, como religião, não aparece. Não há uma doutrina, não há descrição sistemática dos ritos, não há textos sagrados. E a conclusão é a de que os druidas não teriam empregado a escritura para a transmissão de seus ensinamentos teológicos e metafísicos, sendo a oralidade o principal dogma desta religião céltica.[15]

Portanto, o que se sabe concretamente dos druidas e de seu mundo, fora das fontes greco-romanas, nos chega através dos textos vernaculares irlandeses e britônicos, mas nesse caso é preciso que se leve em consideração os séculos que separam os druidas da antiguidade dos monges irlandeses e bretões do século VI e o contexto cristão em que estas narrativas mitológicas de tradição oral foram transcritas.[16]

Christian Guyonvarc'h e Françoise Le Roux são os precursores de uma teoria interpretativa da religião druídica através dos textos mitológicos irlandeses, tendo como suporte a teoria dumeziliana, como não poderia deixar de ser para qualquer investigador da época entre as duas guerras.[17] Segundo estes autores, a tradição céltica foi oral enquanto sobreviveu. Após a cristianização, não há mais como se dar a sobrevivência dos ensinamentos druídicos. Estes apenas se revelam em formas escritas, através de uma oralidade funcional que nos chega incompleta, mas que não impediu a configuração, sobretudo a partir dos trabalhos do casal bretão, de uma religiosidade de alta estirpe, aproximativa dos gurus da Índia ou dos sufis do Islã. E chegam até mesmo a agradecer o fato de que e os druidas não tenham confiado à escritura o teor de suas doutrinas teológicas, visto a inépcia dos modernos em analisar os fatos mitológicos celtas. Com o tom extremamente crítico e autoritativo que lhes é peculiar, Guyonvarc´h e Le Roux fundamentam uma imagem nítida de religiosidade e, sobretudo, uma imagem bastante valorizada do druida celta:

Sinceramente nos sentimos penalizados (pelo fato de os Druidas não terem registrado seus ensinamentos por escrito), sobretudo pelo gaulês que jamais poderemos conhecer completamente. Mas a triste sorte reservada à mitologia céltica por tantos autores e publicações modernas modera o nosso pesar ao constatarmos sua ocultação na antiguidade. Além do mais, o método de ensino dos druidas devia ser bem mais próximo dos métodos dos Gurus da Índia ou dos Sufis do Islam do que dos métodos empregados nas nossas universidades européias atuais. Não é a ausência de escritura que exterminou um tal ensinamento (druídico), e sim o aparecimento no Ocidente de uma nova forma de Tradição, neste caso o Cristianismo, que fez do Livro a Revelação, a Vida e o Exemplo. Os Filid convertidos, sucessores de São Patrício, souberam tirar a conclusão necessária.[18]
Mas, como já mencionamos anteriormente, os dogmas, os rituais, os textos sagrados (que, se existiram, foram perdidos), em suma, a religião druídica propriamente dita, não nos chegou através dos textos vernaculares célticos. O que nos chega através da Irlanda e da Bretanha insular revela apenas a existência de uma classe sacerdotal que certamente existiu. O Glossário de Cormac, compilado por volta de 900, é, sem dúvida, uma fonte importante para a elucidação deste mundo de conhecimento e tradição oral da espiritualidade céltica, mas, como o nome indica, temos apenas fragmentos de fórmulas religiosas, sentenças concisas e preciosismos de uma língua erudita destinados à versificação dos poemas em homenagem aos reis e heróis.[19]

Encontramos alguns diálogos de sabedoria druídica intercalados com os textos mitológicos e as epopéias, mas estes também não revelam mais do que apenas fragmentos de uma tradição. O esoterismo desses diálogos confere uma grande riqueza de imagens, mas, como material fragmentário, não possibilita uma compreensão mais abrangente de uma mística ou de um ritual de iniciação. Neste sentido, nossas perguntas - para começarmos a analisar o fenômeno do neo-druidismo ou do “druida” na modernidade - se colocam:

1 - Como, através dos tempos, teria chegado até os druidas atuais uma cosmogonia e uma mística que desde os tempos mais remotos nunca foi transmitida textualmente, mas oralmente de mestre a discípulo, e que estaria dependente de uma filiação a uma classe sacerdotal tradicional que deixou de existir na antiguidade tardia?

2 - Como fabricar rituais sem os arcanos de uma religião, sem textos sagrados e sem iniciação pelos seus sacerdotes?

O início da reconstrução de um anonimato antigo





Antes de tentarmos responder com os argumentos próprios do neo-druidismo britônico a estas perguntas, cabe uma retrospectiva histórica deste fenômeno pseudo-religioso ou desta mística druídica reconfigurada na modernidade. Devemos notar de antemão que, para os neo-druidas britônicos, o druidismo, tal como praticado hoje, não é uma religião, mas a expressão de uma espiritualidade singular, ligada ao culto da natureza e à tradição oral bárdica. Retornaremos à questão mais adiante.

Outro problema que devemos confrontar e que também já salientamos na nossa introdução é o fato de que este tipo de fenômeno religioso, ou pseudo-religioso, ou místico, não é de fácil descrição, tendo em vista sua ampla disseminação em várias vertentes, cada qual com suas próprias formulações espirituais, esotéricas ou metafísicas, e traçar uma visão de conjunto é quase impossível.[20] Além do fato de que sociedades fechadas, que se baseiam em ritos iniciáticos ou de transmissão, não os revelam ao público geral - é preciso ser um iniciado para se conhecer a dinâmica dos dogmas. Devemos também ter em conta o fato de que os vários neo-druidismos variam de cultura para cultura - anglo-americana, anglo-saxônica, francesa, irlandesa e até mesmo japonesa! E ainda mais: devemos levar também em consideração o fato de que existe uma vertente que pertence, de uma forma direta ou indireta, às culturas célticas e outras que são fruto dos fenômenos próprios da pós-modernidade e sua internacionalização freqüente, repassando de continente a outro modismos, discursos esotéricos e associações de todos os mais variados estilos e concepções.

Mencionamos a ramificação anglo-americana e anglo-saxã pela parte que lhes cabe de parceiros históricos destas culturas: a americana pela imigração irlandesa e bretã e a inglesa pela própria história comum que une célticos e germanos num mesmo território. Mesmo havendo uma possibilidade de categorização e compartimentação dos grupos que se afiliam ao neo-druidismo, tais ramificações não são nada homogêneas em relação a uma concepção do que seria o druidismo e de como ele pode ser vivido na modernidade. Elementos comuns sempre existem, mas as incoerências são mais freqüentes do que os paralelismos.[21] E nem sequer abordamos ou nos interessamos em examinar os neo-druidismo no Brasil e na América Latina, por exemplo, ou na Alemanha ou em Portugal, porque simplesmente esta não seria uma abordagem apropriada para um pequeno artigo. Neste trabalho tentamos focalizar o neo-druidismo britônico.

Os primórdios de um fenômeno que chamamos hoje de neo-druidismo se deu no Castelo de Cardigan em 1176, quando se reuniram os bardos galeses para a primeira National Eisteddfod of Wales, sob os auspícios de Rhys ap Gruffydd, que havia recuperado o castelo das mãos dos Normandos. Esse encontro foi descrito no Brut y Tywysogion (Crônica dos Príncipes), uma das mais importantes fontes para a História do País de Gales. Nesta crônica pode-se ler:

No Natal daquele ano (1176) Lorde Rhys ap Gruffydd presidiu a corte em esplendor no castelo de Cardigan. Estipulou dois tipos de desafios naquele dia: um entre bardos e poetas, outro entre harpistas e gaiteiros e outros músicos. E então estabeleceu duas cátedras para os vencedores e os honrou com ricos prêmios.[22]
Esse é o evento considerado como inicial da tradição galesa de reunir bardos e poetas que seriam - tal como se deseja - os remanescentes de uma tradição druídica. Em primeiro lugar, é necessário que se compreenda que as funções do druida, descritas a partir dos textos vernaculares irlandeses e britônicos, possibilitam uma recuperação medieval. Uma das funções dos druidas era a preservação da literatura oral e das crônicas históricas e genealogias. Havia druidas de três classes: sacerdotes dos ofícios, legisladores e bardos. Esse último é o druida que teria chegado até nós, porque o sacerdote pleno de poderes ao lado do rei já havia caído em desgraça muito antes do surgimento dos textos vernaculares que descrevem seus poderes seculares e sacerdotais.

O que restou de um druidismo na Alta Idade Média cristianizada foram os bardos, considerados poetas da corte e detentores de uma memória arcaica. Em alguns casos também realizavam profecias políticas, que não deixam de nos fazer pensar numa herança druídica de vaticinação - não seria por menos a denominação de Vates em alguns textos latinos gregos e latinos com referencias aos druidas.[23] O exemplo mais típico deste druida remanescente de uma classe sacerdotal da antiguidade celta é Myrddim, o bardo-druida que cai em loucura após a batalha de Catraetth.[24]

Após o evento no castelo de Cardigan patrocinado por Lord Rhys ap Gruffydd, fez-se um longo silêncio até que John Toland, um irlandês visionário, viesse a lançar, em 22 de setembro de 1717, as bases de uma Ancient Druid Order, com o intuito de reunir todos os bardos clandestinos que erravam entre as ilhas e o continente. Seu nome de batismo é Seán Eoghain Ui Thuathalláin, e nasceu em Ardagh no Ulster, região de forte tradição gaélica. Toland não poupará críticas à Igreja Católica de sua Irlanda natal. Foi um anticlerical e “libre-penseur”. Sua obra é uma apologia do panteísmo naturalístico que concebe o universo e a natureza como a expressão viva de Deus em sua forma impessoal, através da qual a humanidade pode aceder à espiritualidade. O termo panteísmo é cunhado por ele e reflete a idéia da imanência de Deus em tudo e em todos. Sua obra é extensa e particularmente “History of the Celtic Religion and Learning Containing an Account of the Druids” (1726) tratará das questões específicas ligadas ao neo-druidismo que inicia, neste momento, sua jornada em direção a novos tempos e novas “ordens”.

Em 1792, um humilde galês, originário do Glamorgan, região também de forte tradição britônica, faz reviver a Eisteddefod - antiga tradição da qual falamos anteriormente, mas sob novas bases e com uma orientação que difere da concepção anticlerical e pagã de Toland. A principal atividade é o Concurso de Poemas e Canções, em que são premiadas as melhores performances, com improvisações orais que dão um caráter tradicionalmente bárdico ao evento. Não foi propriamente uma dissidência da Ancient Druid Order de Toland, que só veio a se desmembrar em 1964, dando origem à Druid Order e à Order of Bards, Ovates and Druids, esta última fundada por Ross Nichols, poeta, artista e historiador.[25] A Eisteddefod foi antes de tudo um movimento literário, uma retomada das antigas tradições britônicas que estavam relegadas a um lugar de cultura subalterna diante da dominação anglo-saxônica. Este movimento de reabilitação da velha tradição, liderado por Edward Williams - Iolo Morganawg no seu nome de bardo - será a pedra inaugural da Gorsedd, agremiação que reunirá importantes representantes das literaturas célticas, numa época conturbada de uma Europa plena de efervescências nacionalistas.

Em 1760 James MacPherson havia publicado sua famosa e controvertida obra Fragments of Ancient Poetry collected in the Highlands of Scotland, baseada em um personagem lendário da literatura gaélica chamado Ossian (Osín), guerreiro e poeta filho de Fion Mac Cumhail e que os irlandeses denominaram de Fenian Cycle. O autor clamava ter recolhido os poemas ossiânicos na cultura oral gaélica da Escócia e em manuscritos antigos. Essa publicação dá origem a uma das maiores querelas literárias da Europa romântica, não sem danos à sua imagem pessoal. A reputação de James MacPherson sofrerá as conseqüências da marginalização por toda uma sociedade letrada que o condena como impostor.[26]

Cem anos depois, em 1870, uma outra compilação de textos antigos entra em cena, mas desta vez em língua galesa - The Myvyriam Archaeology of Wales - Collected out of Ancient Manuscripts. Esta imensa obra de coleta de material folclórico e literatura oral, de genealogias e crônicas históricas, é organizada pelo mesmo Edward Williams (Iolo Morganwg) juntamente com Owen Jones (Myvyr) e William Owen Pughe (Idrison), que irão dar impulso à Ordem dos Bardos, a Gorsedd galesa, a mesma de que falamos anteriormente e que se originou nos encontros da Eisteddefod. A apresentação da obra alertava para sua importância diante do cenário literário internacional:

These books are venerable monuments of enlightened periods of literature amongst the Britons, while scenes of barbarity were acted over Europe, and darkened the light of our island: a literature whose origin was not borrowed, but matured at home, under that extraordinary system, the Bardic institution; concerning which, under the name of Druidism, much has been written, much misunderstood, and of which the world yet knows but very little.[27]
Entramos, então, em uma outra esfera de acontecimentos, em uma outra dimensão do neo-druidismo: um movimento literário que possibilitou a entrada em circulação de tradições orais britônicas e que teve como ponto de partida uma prática antiga que reunia os bardos-druidas em torno do rei e de suas assembléias, quando se dava, então, a recitação e a elaboração da memória literária. Mas, quando entramos no âmbito das histórias célticas e suas literaturas falando de dentro destes estudos para um público que é estrangeiro aos seus fenômenos internos, nunca estamos isentos de explicações preliminares que possam nos salvar de sermos taxados, quer de loucos românticos, quer de reacionários anacrônicos. É o caso do neo-druidismo e de suas intrincadas gêneses... O fato é que a Gorsedd, que foi fundada pelos galeses no final do período romântico, deu origem a um movimento literário importante, mas que só é estudado pelos célticos, sendo assimilado de maneira geral pelo público universitário como mais um delírio romântico à moda de MacPherson:

The extensive neo-druidic literature published by Welshmen in the romantic period in Welsh and English has never been properly studied, but has been dismissed with a patronizing smile in the way historians used to treat early modern beliefs in magic and witchcraft. [...] The revival of Druidism was a movement of considerable significance, all in all, because it involved myths which showed the cultural tradition of Wales to be older than other in western Europe, and it make the scholar or poet or teacher central to that culture. To some extent it restored the bard to his primary place in Welsh life.[28]
Este comentário pode nos fazer perceber o caráter periférico em que se encontravam e ainda hoje se encontram as literaturas célticas, que são estudadas apenas em seus filões nacionais, ficando à margem dos estudos literários pós-modernos ou pós-coloniais, que são, no entanto, tão atentos às literaturas de minorias. Assim, o desconhecimento em relação a essas culturas faz com que freqüentemente o druidismo seja assimilado muito mais no âmbito do celtismo do que de sua configuração histórica como herança legítima de uma literatura perdida pelos acidentes de percurso da história, mas que sobreviveu porque seu princípio, desde os primórdios, a preservou do esquecimento - a tradição oral e o culto à eloqüência.

Delírios existiram e seria ingênuo querer fazer aqui a defesa dos princípios literários do neo-druidismo, mas queremos apenas ressaltar a diferença que existiu - e que ainda existe - entre um neo-druidismo pseudo-religioso e um neo-druidismo literário. Um e outro nem sempre distanciados por linhas plenamente definidas no tempo e no espaço geográfico em que surgem, mas que possuem características que os diferenciam, seja nas origens, seja na forma que tomaram em sua evolução e permanência. Já ressaltamos neste trabalho a natureza fluída do que poderíamos identificar como neo-druidismo na pós-modernidade e suas diferentes formas e gêneses. Tomamos então como referência o neo-druidismo britônico, que nasce no País de Gales e na Bretanha armoricana e que representa uma tradição literária céltica em busca de suas representações modernas. O que existe atualmente deste filão romântico se estendendo, portanto, à nossa atual pós-modernidade, não é fruto direto dos fenômenos que inauguram nosso tempo, mas algo concebido numa outra esfera e, se estas associações tradicionais permanecem ativas até hoje, não devem ser confundidas com as associações e seitas do neo-druidismo pós-moderno que, no nosso entender, são fruto de uma outra dinâmica, de um outro momento e de uma outra dimensão.

Os druidas sempre existiram

Pode-se alinhar o druidismo céltico segundo três vertentes principais: a de John Toland (1717), fundador da Druid Order, de tendência paganisante e anticlerical, e a de Henry Hurle (1781), fundador da Ancient Orders of Druids. Esta “ordem” foi a que menos configurou uma filiação com as tradições orais célticas, sendo desde o início muito mais um grupo da franco-maçonaria inglesa do que propriamente um reflexo de um druidismo revolucionário, evoluindo no seu percurso final para uma associação financeira de ajuda mútua - uma espécie de consórcio previdenciário. A terceira vertente, fundada por Edward Williams (Iolo Morganwg - 1792), é a que se origina da tradição bárdica e a que revelou ser a mais fundamentada nos aspectos históricos do druidismo, tendo como ponto de partida a coleta das tradições folclóricas britônicas.



A Gorsedd galesa torna-se uma instituição de renome e, como não poderia deixar de ser, associa-se aos bretões do continente, pois suas tradições nada mais eram do que a mesma história compartilhada desde a antiguidade e, sobretudo, desde a Alta Idade Média, quando a migração de representantes do Cristianismo céltico insular instaura, na península, uma rede de dioceses com suas abadias e scriptoria. Essa migração preservou, dos dois lados do Canal da Mancha, a memória de uma história britônica. Entre 447 e 632 uma elite aristocrática britônica se instalou no continente em busca de novos domínios, deixando para trás os saxões pagãos.[29] A península armoricana ou a Armórica antiga se transforma então na Bretanha dos Sete Santos.[30] Exatamente nesse período dois personagens - Artur e Merlim - fizeram seus feitos lendários, o primeiro rei dos bretões, o outro, um bardo-druida. Eles representam dois símbolos imanentes à memória cultural dos bretões. O neo-druidismo britônico está ligado de forma consistente aos dois personagens, que fizeram sonhar não apenas os bretões místicos, mas toda uma Europa medieval, gerando o que mais tarde será a matéria do Graal, que se vê relançada na pós-modernidade com os fenômenos editoriais de exploração fácil do gosto mundano pelos mistérios de toda sorte, como o Código da Vinci.[31]

Em 1899 uma delegação bretã é convidada para participar de uma reunião da Gorsedd de Gales. O trabalho de coleta da tradição oral da Bretanha armoricana já havia se iniciado com Hersart de la Villemarqué, Anatole Le Braz e François-Marie Luzel. As relações entre o País de Gales e a Bretanha ficaram definitivamente consolidadas e a Gorsedd da Bretanha foi fundada a partir de então, tendo como primeiro druida Jean Le Fustec, em seguida Erwan Berthou, Taldir Jaffrenou, Pierre Loisel e, desde 1978, Gwenc'hlan Le Scouëzec, que segue até hoje os passos dos primeiros, trazendo para os tempos atuais uma grande riqueza de material folclórico e pesquisa histórica com suas obras, que não estão de forma alguma longe de serem consideradas obras-primas de um neo-druidismo de vertente autenticamente céltica.[32]

Os primórdios do neo-druidismo britônico podem ser definidos como um movimento literário para a recuperação de uma literatura perdida e a reconstrução de um druidismo anônimo. Uma vontade de celebração de um passado glorioso deu origem a todo um ciclo historiográfico e literário chamado de Bretonismo, do qual o neo-druidismo é uma vertente.[33] Hersart de La Villemarqué observa na poesia popular bretã, assim como nos costumes e nos contos coletados por ele e por outros folcloristas, “uma mistura bizarra de idéias cristãs e de crenças druídicas amalgamadas.”[34] Outros escritores também viram nas heranças druídicas a explicação para vários elementos do folclore bretão e colocaram seus espíritos criativos em busca de uma tradição bárdica, reconstruindo uma história anônima e uma mística de origem druídica. Obviamente, a imaginação se aliou à pesquisa histórica, mas também a uma irrefutável tradição literária medieval que trazia no seu corpus elementos pré-cristãos.[35]

Contudo, o neo-druidismo, assim como o Bretonismo e todos os outros componentes do Celtismo, fazem parte de uma matéria em que o número de controvérsias excede a soma das concordâncias. Sem dizer que o conteúdo ideológico do período em que foram lançadas as principais bases da Celtologia moderna não é de fácil assimilação, nem tampouco pode ser analisado brevemente. Podemos, no entanto, depois de uma brevíssima apresentação, responder as perguntas iniciais:

1) Como, através dos tempos, teriam chegado até os druidas atuais uma cosmogonia e uma mística que desde os tempos mais remotos nunca foi transmitida textualmente, mas oralmente de mestre a discípulo, e que estaria dependente de uma filiação a uma classe sacerdotal tradicional que deixou de existir na antiguidade tardia?

Para esta resposta somos obrigados a nos reportar à opinião do Professor Christian Guyonvarc´h. Segundo ele, não há como se fabricar rituais e nem preces. Uma religião ou uma tradição mística só pode ser vivenciada através de uma filiação que supõe uma iniciação por sacerdotes e sua transmissão através das eras. Os druidas desapareceram com a cristianização, com eles, seus ritos: “Se existe uma interrupção da filiação não há iniciação possível”.[36] Assim, o antigo neo-druida dos tempos da juventude se desliga do neo-druidismo britônico para se lançar nas fileiras da cientificidade universitária. Mas é preciso se reconhecer na obra deste bretão catedrático da Universidade de Rennes sua imensa contribuição e a incansável busca de uma solução do enigma do druidismo e do que pôde se salvar de informação sobre uma religião céltica da antiguidade. O principal mistério do druidismo reside no seu desaparecimento silencioso diante de uma nova religião que se instaura nos territórios antes ocupados pelos druidas:

L´étude de la transition du “druidisme” au christianisme ne sera possible que lorsque le christianisme primitif des Celtes sera parfaitement connu. Or, les donnés en sont infiniment complexes, d´une part en Gaule où les druides s´effacent devant la religion officielle romaine sans laisser aucune trace tangible, et d´autre part en Irlande où, quelques siècles plus tard, à l´appel de Saint Patrick et de ses successeurs les filid se convertissent et sauvent le fonds mythologique national.[37]
2) Como fabricar rituais sem os arcanos de uma religião, sem textos sagrados e sem iniciação pelos seus sacerdotes?

Esta é uma questão que deve ser respondida pelos neo-druidas, pelos folcloristas e medievalistas “celtisantes”.[38] Para Gwenc´hlan Le Scouezec - Grande Druida da Fraternidade dos druidas, bardos e profetas da Bretanha - a Gorsedd da Bretanha (Bredeuriezh drouized, barzhed hag ovizion Breizh), ligada por filiação à Gorsedd de Gales, os elementos de uma religião druídica não desapareceram com o silêncio dos druidas e tampouco com o silêncio dos cronistas greco-romanos:

Tout en réalité se passe comme si le druidisme avait persisté, mais que le nom du druide avait été effacé par des raisons évidentes! Nous sommes d´ailleurs environnés de pratiques totalement païennes, sans pour autant faire la liaison avec le druidisme. Je pense en particulier au cultes des fontaines. C´est quelque chose qui n´a jamais cessé, malgré des multiples interdits![39]
As práticas milenares de um Cristianismo céltico nas Bretanhas insular e continental, como também na Irlanda, na Galícia e até mesmo em Portugal, fornecem inúmeros elementos que podem ser estudados à luz de uma religião pré-cristã de tipo druídico. Na Bretanha, a presença quase obrigatória de fontes ao lado das capelas mais simples, como das igrejas mais importantes, são testemunhos deste mundo cristianizado que sobrevive até hoje em peregrinações e costumes populares. As fontes também são encontradas em meio à natureza, sobretudo nos centros de florestas que nunca deixaram de produzir não só fenômenos sobrenaturais, como também lendas das mais maravilhosas.

Quanto a Hersart de la Villemarqué, o folclorista e filólogo bretão não deixará de citar a lenda de Santo Ronan, que fez parte de suas coletas para o Barzah Breizh (Bardos da Bretanha) com o seguinte comentário:

Le druidisme existait encore en Armorique au VIe siècle, et avait laissé des traces si profondes que ses cérémonies se sont mêlées à celles de la fête des saints personnages qui ont les plus contribué à l´abolir; ainsi on fait tout les sept ans processionnellement le tour des monuments druidiques qui se trouvent sur la montagne au flanc de laquelle s´élevait dans la forêt de Névet l´ermitage de Saint Ronan.[40]
O patrimônio cultural e religioso bretão oferece um universo de enorme riqueza para o pesquisador. Arqueólogos, historiadores, folcloristas, medievalistas e, obviamente, celtólogos e lingüistas, poderão talvez um dia ultrapassar os preconceitos e as etapas difíceis da matéria para encontrar, no fundo de uma memória pré-cristã, as respostas que desejamos encontrar sobre os druidas e seus mistérios. E talvez seja esta a legítima contribuição da pós-modernidade em relação ao Druidismo antigo.

Belo Horizonte, 08 de junho de 2006.

Bibliografia

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CARASSOU-LASSALLETTE, Anne-Marie Magie et néopaganisme aux Etats-Unis à l'aube du troisième millénaire: essai d'interprétation (Thèse de doctorat) Université de Michel de Montaigne-Bordeaux III, France, 2 vol, 619 pp. 2002.

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LE SCOUËZEC, Gwenc´hlan. Le Guide la Bretagne mystérieuse, Spézet: Coop Breizh, 2002. (1966).

______________ Arthur, Roi des Bretons d´Armorique, Paimpont: Le Manoir du Tertre, 1998

______________ Bretagne Terre Sacrée, Spézet: Coop Breizh, 1996.

______________ Dictionnaire de la Tradition bretonne, Rennes: Edition du Félin, 1999.

______________ Itinéraire Spirituel en Bretagne, Rennes: La Table Ronde, 2000.

______________ La tradition des Druides, Rennes: Beltan, 2001, 3 vol

MARHIC, Renaud; KERLIDOU Alain. Sectes et mouvements initiatiques en Bretagne - du Celtisme au Nouvel Âge, Rennes: Terre de Brume Editions, 1996.

RAFTERY, B. Pagan Celtic Ireland - The enigma of the Irish Iron Age London, Thames and Hudson, 1994.

Notas

[*] Bolsista Pós-Doutorado Junior da FAPEMIG atuando na Faculdade de Letras da UFMG e membro do NEAM - Núcleo de Estudos Antigos e Medievais.

[1] Nem sempre estamos livres de ataques clandestinos quando ousamos expor ao ridículo os argumentos, por exemplo, de neopagãos e outras derivações, sem falarmos nas seitas satânicas, que estão longe de ser simples agremiações para se reverter em verdadeiras associações criminosas.

[2] Actu Sectarisme - Cercle Laïque pour la prévention du sectarisme, associação que se propõe a ser na França um observatório destes fenômenos sociais reunindo psiquiatras, psicólogos e sociólogos em torno da questão. Existem várias outras, inclusive as comissões ligadas à UNESCO. http://www.actu-sectarisme.com/]

[3] A grande maioria de seitas observada no cenário francesa é proveniente dos Estados Unidos. De uma certa forma, poderíamos dizer que as “tradições pagãs” comuns a uma herança européia foram substituídas por novas “tradições”, porque seria ingênuo ignorar toda a história européia de sociedades secretas e ocultismo. Na verdade, o neo-paganismo americano tem suas raízes na herança anglo-saxônica, de fundo europeu, mas é fruto de uma outra conformação histórica e por isso se insere como fenômeno pós-moderno. Suas influências na Europa são, portanto, um retorno reconfigurado de elementos europeus medievais.

[4] Carassou-Lassallette, Anne-Marie Magie et néopaganisme aux Etats-Unis à l'aube du troisième millénaire: essai d'interprétation (Thèse de doctorat) Université de Michel de Montaigne-Bordeaux III, France, 2 vol, 619 p. 2002.

[5] O termo irlandês druidecht, que corresponderia a “druidismo”, é tomado na acepção moderna de magia, feitiçaria, arte diabólica, que identifica, portanto, a discrepância entre o druida antigo e o druida decadente da era cristã. In: Guyonvarc´h J-C, Les Druides, Paris: Payot, 1986, p. 383.

[6] O termo é empregado por Luciano de Samóstata ao relatar um diálogo entre um historiador grego e um indígena, portanto, um celta, a propósito da divindade adorada por este chamada Ogmios, que os gregos tratam de identificar a Hércules. Discours 1-7 “Hercule”.

[7] Um excelente estudo e apresentação das diferentes formas para o nome druida em grego e latim pode ser encontrado em Christian Guyonvarc´h, Les Druides (Annexes etymologiques, p. 425 a 444), obra que é referencia inicial e fundamental para qualquer estudo sobre os druidas na antiguidade, aqui citada na nota 5.

[8] Ver o excelente estudo disponível on-line: Lupi, João, Os Druidas BRATHAIR, 4(1), 2004:58-63. www.brathair.com

[9] AUSONE, Commemoratio professorum burdigalensium IV ; 7-10 et X ; 22-30. Poeta latino nascido em Bordeaux, (287-377) preceptor de Graciano, imperador de Roma em 367. Autor das Idílias.

[10] “The complexity of Celtic religious beliefs and practices often defies easy reconstruction from material remains. For archaeology tends to uncover only the end-products of what probably elaborate and long-drawn out ritual activities. Here, therefore, we enter the fascinating realm of speculation” In: Raftery, Barry Pagan Celtic Ireland - The enigma of the Irish Iron Age, London: Thames & Hudson. 1997, p. 179.

[11] Sobre os druidas na arqueologia, devo assinalar a contribuição de Adriene Baron Tacla, doutoranda em Arqueologia Européia, St CrossCollege, Universidade de Oxford, bolsista do CNPq.

[12] Kruta, Vemceslas, Les Celtes - Histoire et Dictionnaire Des origines à la Romanisation et au Christianisme, Paris: Robert Laffont, 2000, p. 582.

[13] Webster, Jane, Roman Word Power and the Celtic Gods, Britannia, Vol. 26, 1995, p. 153-161.

[14] Neste sentido estaríamos devedores da teoria de Dumézil sobre a tripartição das funções na sociedade indo-européia e da mitologia comparada dumeziliana, que identifica sem problemas um fundo comum indo-europeu para as mitologias grega e celta. Mas até aqui estamos falando da arqueologia e da ausência de textos antigos celtas relativos aos cultos religiosos, e de um sistema de expressão figurada que não é sempre passível de paralelismo constante. Esta é a razão de se apontar, do ponto de vista arqueológico, a fragmentação relativa e a problemática análise de uma religião celta. As teorias de Dumézil foram possíveis porque trabalharam com o imenso patrimônio textual indo-europeu em seu conjunto, estabelecendo uma gênese a partir da qual se identificam processos civilizatórios análogos - a teoria da tripartição das sociedades primitivas e suas funções - real, sacerdotal e guerreira, paralelamente aos estudos de filologia e lingüística comparada.

[15] Na verdade, o único dogma que realmente podemos assegurar além, talvez, da transmigração das almas, mas este assunto não seria pertinente aqui.

[16] O termo britônico identifica a língua céltica falada pelos celto-bretões na Bretanha insular antiga - Britannia -, como também a cultura e a história dos bretões em contraposição ao termo britânico, que é moderno e surge como uma apropriação com o Tratado de União entre Escócia e Inglaterra, em 1710, dando início ao imperialismo inglês dentro e fora da “Grande Bretanha”.

[17] Até hoje nos vemos em dificuldades ao tentarmos nos desvencilhar da famosa teoria das sociedades tripartidas que deram origem à civilização indo-européia. Somos obrigados a admitir que nada apareceu ainda que possa redimensionar, através de bases sólidas, a teoria dumeziliana.

[18] Guyoncarc´h, C-J & Le Roux, F. Les Druides, Rennes: Editions Ouest-France, 1998, p. 269 (trad. nossa).

[19] Paul Russell, The Sounds of a Silence: The Growth of Cormac's Glossary, Cambrian Medieval Celtic Studies 15, Summer 1988.

[20] Existem diferentes tipos de sociedades druídicas, que possibilitam uma tentativa de classificação como a que segue: sociedades druídicas por definição, grupos paganisantes, grupos esotéricos e os neo-cristãos célticos, que demandaria não apenas uma nota, mas um outro estudo. Esta nova vertente do Cristianismo não reivindica um neo-druidismo, mas sim as especificidades do Cristianismo céltico e a recuperação de seus ritos. Ver a respeito: http://www.orthodoxie-celtique.net/, (acesso em 04.06.2006).

[21] Alguns autores consideram uma datação que se segue: Paleodruidismo de 1000 AC até 600 DC, Mesodruidismo de 1717 até hoje e Neodruidismo de 1963 até hoje. O Mesodruidismo com filiação no País de Gales e o Neodruidismo nascido nos Estados Unidos - uma espécie de dissidência da tradição que remonta aos velhos senhores do druidismo romântico, uma espécie de protestantismo druídico que se auto proclama Refomed Druids of North América (1963) combinando preces à Mãe Terra, Zen-Budismo, culto às divindades célticas e misticismo cristão. Adler, Margot. Drawing Down the Moon: Witches, Druids, Goddess-Worshippers, and Other Pagans in America Today. Third edition. NY: Penguin, 1997.

[22] Brut y tywysogyon, The chronicle of the princes: Peniarth Ms. 20 version/translated with introduction and notes by Thomas Jones Series: History and law series, Board of Celtic Studies, University of Wales; no. 11, Publisher: Cardiff: University of Wales Press, 1985 (tradução nossa).

[23] Strabon IV, 4, 4, Pline Nat. Hist. XXX, 13, dente outros.

[24] Catraeth: local da batalha em que os bretões do norte, comandados por Mynyddawg Mawr, foram derrotados, dando origem à elegia cantada pelo bardo Aneurim. Primeira menção a Arthur como personagem heróico. Aneurim faz menção por sua vez a Myrdhim como bardo-profeta dos bretões.

[25] Que, por sua vez, esteve em contato freqüente com Gerald Gardner, que primeiro introduziu a Wicca: pseudo-religião que se pretende antiga, pré-cristã sendo uma das principais vertentes do neo-paganismo moderno, que reivindica uma “sabedoria oculta” das bruxas.

[26] Gaskill Howard, (ed.) The Reception of Ossian in Europe, London: Thoemmes Continuum, 2004.

[27] JONES, Owen; WILLIANS, Edward ; OWEN, William (Eds.) The Myvyrian Archeology of Wales, The general Advertisement, Denbigh: printed and published by Thomas Gee, 1870.

[28] Morgan, Prys, 'From a Death to a View: the Hunt for the Welsh Past in the Romantic Period' In: Hobsbawm, E. & Ranger, T. The Invention of Tradition Cambridge University Press, 1983. p. 66.

[29] As migrações bretãs (ou britônicas) para o continente tiveram várias razões, mas a partir da obra de Gildas - De Excidio et Conquestu Britanniae - tornou-se quase obrigatório mencionar os saxões como principais responsáveis pelo êxodo da aristocracia em direção ao continente, pela insistência do cronista em ressaltar este fato.

[30] Apenas dois santos não vieram da ilha, segundo a tradição: Corentinus e Paternus, nativos da Armórica, o que significa que antigos laços culturais já reuniam os bretões insulares e armoricanos desde tempos remotos. Os outros santos são Aurelianus, Briocus, Tugdualus, Sampsonis, Malon, (que deu origem ao nome da cidadela de Saint-Malo, famosa pela sua história de navegação). Sobre a migração bretã para a Armórica, ver: fléuriot, Leon Les Origines de la Bretagne, Paris: Payot, 1999.

[31] Que não é nada mais nada menos do que uma reconfiguração, em tons sensacionalistas, da tese de Michael Baigent, Henry Lincoln, Richard Leigh, publicada em 1983 pela Dell Publishing Company e intitulada Holy Blood, Holy Grail, 496 p. Estamos aqui diante do que poderíamos considerar um plágio simples.

[32] Cf. nossas referências bibliográficas das obras de Gwench´lan Le Scouezec.

[33] Guiomar Jean-Yves Le Bretonisme - les historiens bretons au XIXe siècle, publié par la Société d´Histoire et d´Archéologie de Bretagne, Mayenne, 1987, 445 p.

[34] La Villemarqué, H. De La Myrdhim ou l´Enchanteur Merlin - son histoire, ses oeuvres, son influence, Paris: Terre de Brume, 1989. (1862)

[35] «...après tout, le druide et le druidisme ne subsistent que dans le domaine du littéraire et du folklorique. En Irlande, les exemplaires de l´écriture oghamique ne représentant pas un ensemble d´informations substantielles sur le druidisme et ses prêtres.» In: donnard, Ana Arthur en Bretagne, Arthur pour les Bretons, (thèse de Doctorat) Université de Rennes, 2004.

[36] Jigourel Thierry Les Druides - modernité d´une tradition millénaire, Spézet: Coop Breizh, 2000, p. 145.

[37] Guyonvarc´h, Les Druides, p. 10.

[38] O termo celtisants em francês foi primeiro empregado na historiografia literária do mito arturiano para distinguir os autores que privilegiavam a teoria da transmissão dos elementos célticos como fundadores de uma tradição literária ocidental, diferenciando-os dos romanistas, que viam nas tradições literárias francesas a fontes primordiais da matéria da Bretanha.

[39] Jigourel Thierry Les Druides - modernité d´une tradition millénaire, Spézet: Coop Breizh, 2000 (entrevista, p. 96).

[40] Citado por Guiomar, J-Y IN: Le Bretonisme, pag. 191.



página pertencente ao site http://www.pucsp.br/rever
Revista Eletrônica Rever - ISSN 1677-1222

quarta-feira, 10 de março de 2010

Joe Michael Straczynski em Wonder Woman!!

Porque sangue de fã tem poder!!!


Gloria ,aleluia!!!

Obrigado Quesada por fazer o grande favor de tirar o JMS das garras da Marvel e das paginas do Thor e colocá-lo, enfim , onde ele poderá fazer o trabalho glorioso que a Amazona merece!!!! My most sincere thanks!!



NO LIMITS: J. MICHAEL STRACZYNSKI ON SUPERMAN, WONDER WOMAN
Monday, March 8th, 2010


By Alex Segura

One of my very earliest memories as a child is of watching one of the Superman cartoons created by Max Fleischer. In particular, a scene where Superman puts his cape around Lois Lane to protect her from an incoming tide of molten metal. I imprinted on that image like a baby duck, and a lot of what I laughingly call my personality was formed in that moment (which is why a cel-recreation of that image is one of the first things you see upon entering my home, before you get to the row of wall after wall covered with artwork by Alex Ross, Curt Swan and others, as well as just about every bit of Superman memorabilia ever produced).



As a kid growing up in the mean streets of New Jersey, Superman was an icon for me. It was a tough life: we moved about 21 times in my first 17 years, we didn’t have much money, and every day was a struggle. When I told grown-ups that I was going to be a writer someday, nobody listened, nobody thought I had a chance, because as far as teachers were concerned, kids like me who came from nowhere and nothing were dead-enders, destined to end up working at the gas station at best or in jail at worst. Writers were supposesd to be Ivory Tower guys with leather patches on the elbows of their smoking jackets, who went to the right schools and came from the right families. I lived in the world of No, a place populated by bullies and street fights and tenements, with no possibility of escape.

But Superman…see, Superman could do anything. If there was someplace he didn’t want to be, he could just fly away. And he couldn’t be hurt, which to a kid who got beat up pretty regularly in fights and elsewhere was a pretty attractive idea. Superman taught me the morals and ethics I draw up on to this day: to play fair, not to lie, and to be willing to put yourself between harm and those you care about.

If Superman could do anything, then maybe I had a chance. Maybe I could become a writer. Maybe I could even learn to fly. That symbol, the S, became a badge for me, and growing up I always made sure I had it somewhere on me, like a shaman’s charm. That may sound silly, and from a grown-up perspective it probably is silly, but as Henry Kissinger once said, it has the added benefit of being true. And it helped me get through the hard times, which is why I continue that practice to this day…right now it’s on a key-chain in my pocket.

For me, and I suspect for a lot of people, that symbol stands for the belief in our own potentiality, in what we think we can do, and try, and aspire to. I was watching the news recently, and they were showing Palistinian protests, followed by a story on the night life scene in LA, and later on, a live report from London about somethingorother…and in the background of each of those stories there was somebody wearing a Superman t-shirt or cap. It’s universal.

And there’s a reason for that, a secret no one knows, but I’ll tell you, because of how long I’ve known you, and our longstanding friendship.

And the secret is this:

The Superman symbol is Kryptonian for No Limits.

And whether or not you speak Kryptonian (or Kryptonese), you know that…you know that deep inside, where even the cynicism of the world cannot reach.

I’ve told this story before in other places, so at risk of being redundant…back a few years ago, I was at the Chicago Comic Con when a guy in his 20s grabbed a bunch of expensive stuff off a table in the dealer’s room and made a run for it. The ownere ran after him down the aisle, yelling “stop him!” As he came in my direction, everybody parted like the Red Sea.

I brought him down like a gazelle, and we held him untnil the police showed up.

Afterward, one of the con organizers said to me, “Why’d you do that? He’s a big guy, you could’ve gotten hurt.”

And I pointed to where I’d been standing when it happened: right in front of a ten-foot-tall cutout of Superman. “How could I stand in front of that, in front of him,” I said, “and do nothing?”



As Superman has been for me, so Wonder Woman has been for a lot of women readers, so the chance to dive into that character is something I’m eagerly anticipating. This is a strong, mythic, powerful character who for some time now has been kind of drowning under the weight of her own mythos, so I’m looking forward to paring away some of the layers of debris and undergrowth that have piled up around her in order to get to the core of the character.



Coming from the world of TV and film, the first rule you learn is to service the main character more than anything else, so I’ll be writing with an eye firmly fixed on that rule.



As part of that process, we’re going to be looking more closely at how Wonder Woman appears, and functions, and her role in the DCU…and what we have planned will, we hope, come across as dynamic and powerful as she deserves to be.




Similarly, we plan to bring Superman back to his roots, to really explore who he is…how he sees us, and how we see him, in a much more personal way than we’ve seen in a while. This is part of a larger effort that will have national ramifications, but I can’t say much more about it than that for now. Keep an eye on this website for more information when the time is right…but for now, let’s just say that Superman may be a lot closer in proximity to you, the reader, than you ever guessed.

To kick off both efforts by appearing in the anniversary issues of these two characters is a great opportunity, and a good jumping-on point for readers.

If there’s any other message in this to readers, it’s in these two characters as icons of hope, that it doesn’t make any difference where you come from, or where you went to school, or who you are, there’s hope. That a kid from Jersey with Superman as the icon that kept him alive for years would one day end up writing the character is as absoutely unlikely as it is utterly inevitable. And if that’s true for me, it’s true for you, if you follow your dreams and your passions in full flight.

Don’t give up.

No Limits. It’s never too late to learn to fly.

J. Michael Straczynski



sábado, 6 de março de 2010

Oromë e Tilion-O Deus de Chifres Celta no Legendarium de Tolkien




O Senhor da Caçada Selvagem, o deus de chifres celta e a “Lua do Caçador”

Muitas vezes quando se está tentando explicar Tolkien é comum se recorrer a analogias para tornar mais claro a linha de raciocínio. Algumas pessoas acham que isso torna a explicação longa demais e ininteligível , na maioria das vezes, porque passa a se estender por mais do que dez linhas. Mas a verdade é que a obra de Tolkien por ser construída através de bricolagem, com o uso de fontes heterogêneas “coladas” e transformadas pelo contexto que ele cria, só é realmente bem compreendida pelo uso de analogias, já que sendo o mundo inventado de raíz nem todas as partes serão detalhadas e explicadas com o mesmo grau de minúcia, gerando os pontos obscuros do Legendarium. Tolkien frequentemente usou analogias para explicar e definir conceitos criados a partir de homólogos do “mundo real”, seja destacando inspirações mitológicas,teológicas ou modelos históricos para o que ele fazia na Terra- Média

O rastreio das influências, quando feito com critério, é uma excelente porta de entrada para os processos de pensamento do artista que, assim sendo, pode ser melhor estudado e compreendido. O procedimento que pode receber a alcunha de engenharia reversa, é um intrumento notável que dirime dúvidas e evita erros por parte de intérpretes, tradutores e consumidores do trabalho artístico.

Um exemplo singelo e, porém, elucidativo pode ser encontrado na mitologia criada por Tolkien. Em sua criação mitopéica o mundo é regido por entidades benignas que, grosso modo, podem ser equiparadas aos deuses pagãos. Um desses seres, guardiões do Mundo Material, Oromë, tem, como um de seus servos, um semi-deus, ou “espírito” de menor estatura que é o timoneiro da nave que é a lua terrestre. No texto em inglês é dito que o nome desse gênio é Tilion, cujo nome significa “ the horned”. O elemento “til” do seu nome é traduzido como “chifre” que em inglês é “horn”. Horned então deveria ser traduzido, literalmente, como “portador de chifres”, ou “munido de chifres” ( como feito na edição brasileira da Martins Fontes) para se evitar as conotações pejorativas atribuídas aos termos “chifrudo” ou “cornudo” no nosso idioma.




.
Oromë e Tulkas-irmãos de armas no traço de Tiago Kirsch-tem o grande mérito de ser ,até onde sei, a única representação de Orome adornado com chifres


Entretanto, “horn” em inglês também pode ser traduzido como “ curva” ou “ponta” ( de onde proveio também a expressão “horny” correspondente a sexualmente excitado) e a autora da tradução do livro em Portugal acabou traduzindo “horned” como “ encurvado” porque não conseguiu compreender por que uma entidade benevolente seria denominada “chifruda” no contexto dos mitos de Tolkien onde o demônio judaico-cristão é um colega rebelado de Oromë e dos demais “deuses”.



Deusa Artemis e seu arco "encurvado" representando uma argêntea lua nova



Oromë e seu arco arbóreo, na arte de Daniel Govar, reparem nas discretas ramificações sutilmente reminiscentes de chifres no elmo do vala

Tal equívoco poderia ter sido evitado se a tradutora, que, no geral, fez um trabalho magistral, soubesse que os chifres associados à figura do Demônio na iconografia cristã são resultantes de um processo de sincretização ( que, claro, também é um tipo de bricolagem) que o Satã bíblico sofreu com entidades da mitologia celta tutelares dos ritos sazonais que festejavam a fecundidade, a qual , aliás, é o simbolismo original dos chifres.

Na mitologia céltica, a entidade chamada Herne ( mesma raiz de horn e de corno), Cernunos, Carnum, representa o ciclo infindável de morte e renascimento vivenciado pela natureza e, portanto, acabou associada não somente aos rituais da fertilidade, mas, também, ao Submundo , o reino Inferior onde habitam os mortos. Sob esse aspecto, como captor e regente dos mortos, Herne recebia o nome de Gwyn Mab Nud ou Arawn e era o governante de Annyvn, o Submundo celta, e, portanto, um equivalente do greco-romano Hades/Plutão.



Gwyn Mab Nud ou Arawn eram tidos como os condutores da chamada Caçada Selvagem que, por ocasião do Equinócio de Outono, fendia os céus setentrionais da Europa numa celebração dionisíaca da vida que era uma rememoração em nome dos finados e, também, uma preparação para a morte simbólica da natureza que, em breve, perderia seu viço ante a chegada do Inverno*. A trompa desses deuses caçadores era um presságio para a morte, e uma lembrança, de que a vida se nutre do passamento cíclico da luz para a escuridão, e de que, deste modo, a Longa Noite do Inverno também fazia parte da natureza harmoniosa do Mundo.




* O que faz do Demônio Escuridão no filme a Lenda uma versão maligna da divindade celta. e uma clara derivação ou herança das mesmas fontes que inspiraram Tolkien e o Demônio Medieval
.

Ocorre, entretanto, que o deus tolkieniano Oromë, do qual Tilion “cornudo” era um vassalo, não somente era o protetor das florestas, assim como Herne, como, também, era o Grande Caçador, cujo nome significa, precisamente, Tocador de Trompa ( que é também “horn” em inglês porque as trompas eram , originalmente, feitas com os chifres de animais, vide o nosso “berrante” ). Oromë, que tinha muitos nomes entre os homens ( que seriam, assim, os vários apelidos dados ao mesmo arquétipo) era chamado nas regiões meridionais de Gondor, um reino na mitologia de Tolkien, de Araw , um nome que, obviamente , é a versão tolkieniana do celta Arawn.



Empregando a engenharia reversa, torna-se claro o motivo que levou Tolkien a batizar de “cornudo” um servo de um deus benéfico. Os caracteres do deus celta que serviu de inspiração para o “vala” de Tolkien foram redistribuídos entre Oromë e seu vassalo. Oromë ficou sendo o caçador, o portador do nome Araw e o tocador de trompa, senhor da Caçada Selvagem, enquanto Tilion ficou sendo o “munido de chifres” e um caçador menor do séqüito de Oromë.

Mais tarde, promovido a guardião da flor mística, que é a luz da lua, e piloto da nave que é o orbe lunar, ele se torna o “Homem da Lua”, e os chifres que são seus atributos se ajustam perfeitamente à nova função porque os animais com cornos também são associados com a lua que é símbolo de fertilidade assim como os chifres ( daí o conceito de “cornucópia” ).


Também não é obra do acaso que em inglês exista uma expressão muito conhecida chamada a “Lua do Caçador”. É a lua cheia que mostra as presas a serem caçadas durante a noite, sobretudo a que vem no mês de Outubro no Hemisfério norte, o mesmo mês da folclórica Caçada Selvagem..





Yavanna, Oromë e seu "casamento" cósmico-A Hierogamia entre o deus e a deusa




Essa ligação com o Deus de Chifres também ajuda a esclarecer porque é que Yavanna no tempo de HoME V, The Lost Road, concebia Oromë como um dos seus filhos, aparentemente, sem ter ainda casado com Aulë. Naquele tempo da concepção do Legendarium não existiam ainda os Maiar e diversos deles eram filhos dos Valar.

Tal relação, similar à que Hera tinha com Hefesto e a de Zeus com Atena, onde os deuses concebiam filho sem consorte , no caso dos dois Valar, se explica muito melhor com a noção de que a Deusa da Terra e da fauna e flora célticaformava um casal "cósmico" com o Deus de Chifres onde ela era, ao mesmo tempo, a Mãe e a Esposa dele, simbolicamente, gerando o deus vegetal que morria e ressuscitava todo os anos e que era o Senhor das Feras e o Caçador quando renascido a partir do seio de sua Mãe Terra.Por isso e que a irmã mais nova de Yavanna, Vána, era a esposa de Oromë, lembrando muito a Blodeuwedd celta, a dama das flores.Digno de nota é que Vana era o nome sânscrito para "floresta", diversos nomes do idioma valarin de Tolkien parecem calcados no sânscrito e no hindi, o que evoca novamente a noção de casamento da Deusa-Terra com o Rei das Feras

E esse negócio de concepção "imaculada" hein? interessante que é por isso que Marion Zimmer Bradley disse que todos os deuses e todas as deusas são um só Deus e uma só Deusa.)

Então é provavelmente por isso que Tolkien, uma vez, fez com que Oromë fosse produto do pensamento de Yavanna sozinha, uma espécie de versão menor do que ocorria com os Valar e Eru Ilúvatar.Assim como eles eram a prole do pensamento do Único , Yavanna também teria a singularidade de gerar uma vida independente a partir dos seus próprios pensamentos, como se ela tivesse expelido de si própria uma versão masculina do seu ser.Essa idéia depois foi reaproveitada quando Tolkien fez dela a genitora da raça dos Ents , que são Jacks do Verde, ou Homen Verde,Green Man, correspondente à versão sacrificial sazonal do Deus de Chifres, interpretado por Tom Cruise no fime A Lenda.

Uma projeção do Animus ( a parte "masculina" da psiquê na concepção de Jung) tornada autosuficiente. que se dedicava a proteger com fúria e armas as coisas que ela prezava e protegia de forma "passiva".

and Orome was the offspring of YAvanna, who is after named, but not as the Children of the Gods born in this world, for he came of her thought ere the world was made.

e Oromë era o rebento de Yavanna, que está mencionada depois, mas não como os Filhos dos Deuses nascidos neste mundo, pois ele proveio do seu pensamento antes do mundo ser feito.

É provável também que o nome de Oromë como guardião das Florestas igualmente refletisse essa origem céltica, já que ele era chamado Tauron, lembrando, automaticamente, touro, tauros em latin, um animal de chifres , frequentemente oferecido como sacrifício aos deuses, associado com a divindade celta Tarvos Trigaranus

Esse, por sua vez, é quase idêntico a outro nome dado a Oromë no tempo de The Lays of Beleriand, Tavros.Tavros que também significa "touro" em grego e é o nome de uma cidade) . Então, temos Tauron, que no Tolkien significa "da floresta", derivado do latin tauros, temos Tavros adaptado do grego, tavros, gerando um análogo do nome gaulês para touro, Tarvos, que era o nome de uma divindade.







Then Thingol said: '0 Dairon fair,
thou master of all musics rare, 885
0 magic heart and wisdom wild,
whose ear nor eye may be beguiled,
what omen doth this silence bear?
What horn afar upon the air,
what summons do the woods await? 890
Mayhap the Lord Tavros from his gate
and tree-propped halls, the forest-god,
rides his wild stallion golden-shod
amid the trumpets' tempest loud,
amid his green-clad hunters proud,

The name Tavros given to Orome (891, 904) has occurred long before in the Gnomish dictionary, defined as the 'chief wood-fay, the Blue Spirit of the Woods' (I. 267, entry Tavari). With his tree-propped halls (892) compare the description of Orome's dwelling in Valmar in the tale of The Coming of the Valar and the Building of Valinor, I. 75 - 6. At line 893 is the first mention of the golden hooves of Orome's horse.




O análogo de Cernunnos e de Oromë no jogo Warcraft, o Semi-Deus Cenarius, defensor da Floresta,filho da Deusa-Mãe dos Elfos da noite, a deusa da lua , Elune. Eu sempre me perguntei o porque dele ser "azul". Parece que ai pode estar a resposta, ele parece ser uma engenharia revertida de Oromë voltando-o o pra sua fonte que é Cernunnos , o deus de chifres


O touro então, desempenhava um papel importante na ignota e misteriosa cosmogonia celta e, provavelmente, era ligado à imagem do Deus de Chifres tal como era adorado entre os Cretenses, o que teria originado o mito do Minotauro entre os gregos.



"A família que caça unida..." de Jonathan Earl Bowser


Juntos ambos os deuses, o Deus de Chifres e a Deusa Terra, no imaginário "celta" reconstruído do seculo XX, são os mantenedores da ordem natural do Mundo e, por isso, Tolkien parece ter feito de Yavanna e Oromë os mais afeiçoados à Terra Média, sendo seus arquétipos e características ecoados até um certo grau , junto com suas influências no caráter e natureza misteriosos de Tom Bombadil e Goldberry.

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Tuatha Dé Danann e os Elfos de Tolkien



Outro dia no forum da Valinor que , recentemente sofreu uma cataclismica perda de dados correspondente as atualizaçoes dos ultimos quatro meses Anwel escreveu isso dai:

O que eu já li no livro "Explorando o Druidismo Celta", é que os Tuatha Dé Dannan era uma antiga família de "deuses", filhos de Dannan, ou Danu.

Até onde eu entendi o livro, não tem nada correlacionado com os elfos.


Bom, os Tuatha Dé Danaan, assim como os elfos Noldor de Tolkien, eram detentores de grande poder mágico, eram "imortais" mas podiam morrer por desgosto ou ferimento físico superior ao seu dom de regeneração, tinham uma pátria paradisíaca além do Oceano Ocidental ( País do Verão, Tir na Nog ou Hy Brazil), exatamente igual a Aman, reencarnavam do mesmo modo que os elfos de Tolkien reencarnavam no começo do Legendarium, viviam entre "dois Mundos" como o Glorfindel depois de reencarnado e trazido de volta à Terra Média, chegaram à terra da Irlanda e enfrentaram ou entraram em acordo com seres "aparentados" com eles próprios que tinham características monstruosas ou "menos luminosas" ( os Firbolg, paralelos aos Moriquendi, elfos cinzentos e os Fomoire, paralelos aos Orcs.



Vale ressaltar que o nome dos Fomoire ( "submarinos") lembra na fonética e no significado um nome alternativo dos Teleri, Falmari, "elfos das ondas"). Os Tuatha tinham como base de operações do seu Grande Rei , mesmo título dado ao Rei Supremo dos Noldor ( High King) que governava os outros reis menores, um monte chamado Tara, lembrando o nome da habitação original daquele que seria High King dos Noldor mais tarde, o monte Taras de Turgon em Vinyamar.

Também um dos Tuatha, Nuada "Mão de Prata" ( "coincidentemente" o mesmo significado de Celebrimbor) perdeu uma mão na guerra com os Firbolg e abdicou do trono em favor de Bres, o formoso, assim como Maedhros perdeu uma mão e abdicou da soberania dos Noldor em prol de seu tio , Fingolfin. Também os Tuatha Dé Danan queimaram os seus barcos quando chegaram na Irlanda assim como os Noldor queimaram os deles , apenas por um motivo diferenciado da mesquinharia de Fëanor ( mas a traição e o medo de deserção também eram a explicação).

E essa lista não exaure as similaridades, tem muito mais de onde elas vieram e só agora estão sendo devidamente estudadas mesmo em inglês. Então, Anwel, pode ter certeza que existe sim MUITA similaridade entre os Noldor e os Tuatha Dé Danaan , por mais que Tolkien declamasse em verso e prosa sua "certa aversão " pela mitologia céltica e os "ares" e a língua da Terra da Irlanda. Algumas dos Tuatha De Danaan foram inspiraçao para outros personagens do Legendarium alem dos proprios elfos, inclusive alguns dos Valar como Orome e Ulmo e aspectos de Yavanna, Vana, e Tilion, alem de Tom Bombadil e Goldberry.




OsTuatha de Danaan como aparecem no universo Marvel


Excelente página sobre isso em português:

http://www.templodeavalon.com/modules/mastop_publish/?tac=Tuatha_D%E9_Dannan

Quem quiser ver mais sobre isso pode dar uma olhada no ensaio da Dimitra Fimi , Mad Elves and Elusive Beauty, some celtic strands in Tolkien's mythology.


"Mad" Elves and "elusive beauty": some Celtic strands of Tolkien's mythology (http://de-vagaesemhybrazil.blogspot.com/2009/09/mad-elves-and-elusive-beauty-some.html)

Aí no blog está postado com as belíssimas ilustrações de Jim Fitzpatrick feitas para seus dois albuns sobre mitologia celta.


Tambem comentaram a tese de que os irlandeses cristianizados identificaram seus "elfos", os sidhe com anjos semi-caidos que ficaram neutros na batalha com os Anjos Rebeldes

Dunstran, aonde vc leu sobre esses "indecisos" , numca ouvi falar deles, mais acho q gostaria de saber mais sobre esse assunto.

Essa é uma explicação popular nos manuscritos medievais para explicar o povo das fadas Leniel. Como acontecia com outras religiões, os seres místicos "pagãos" eram associados com os anjos caídos mas o texto medieval que popularizou essa noção dos "elfos" sendo neutros na guerra do Céu e , por isso, terem caído teve sua fonte principal no Navigatio Sancti Brendani abbatis (The Voyage of Saint Brendan the abbot) do século 9. Tolkien ,inclusive, fez um poema, Imram, baseado nesse texto, incluído em HoME IX. A Viagem de São Brandão e seus antecessores célticos não cristãos como a viagem de Maeldun, são a base para a história de Eärendil.

http://tolkiengateway.net/wiki/Imram

Está sendo traduzido para o português aí
http://navigatio.incubadora.fapesp.br/portal/brendani e a versão em inglês foi salva do cache do Google e postada aí

http://de-vagaesemhybrazil.blogspot.com/2009/10/nauigatio-sancti-brendani-abbatis.html

Textos excelentes falando sobre a obra aí:

http://publicacoes.unigranrio.com.br/index.php/reihm/article/viewFile/472/463

http://www.brathair.com/revista/numeros/03.02.2003/folclore.pdf

Essa é a tal conversa que São Brandão teve com um dos espíritos sob a forma de um pássaro no "Paraíso dos Pássaros" ( lembranças de Elwing e sua forma de gaivota e depois sua forma alada em Valinor)onde o espírito falou dos motivos da queda da sua estirpe, o fato de terem ficado "em cima do muro".

* A idéia dos elfos "malignos" pode ter a ver com a supressão do paganismo pela cristandade. Segundo uma lenda popular na Escandinávia medieval,A idéia dos elfos "malignos" pode ter a ver com a supressão do paganismo pela cristandade. Segundo uma lenda popular na Escandinávia medieval, quando Lúcifer se rebelou contra Deus, muitos anjos se uniram à rebelião, muitos outros ficaram do lado "divino, mas houve um grupo que ficou "em cima do muro": nem se aliaram ao Diabo, nem lutaram contra ele. Os anjos rebeldes foram lançados no inferno, mas os anjos "indecisos" foram condenados apenas a abandonar o Céu e a viver na Terra. Segundo a lenda, esses anjos são os ancestrais das fadas - às vezes identificadas com os elfos da luz -, dos anões e dos demais "espíritos" e "gênios".


Trata-se , sim, de uma lenda medieval popular, só que essa história não é escandinava, é gaélica e irlandesa na sua origem. Essa preocupação de situar os "elfos" na hierarquia cristã dos seres criados por Deus era típica da Escócia e da Irlanda em seus textos medievais e essa tensão se comunicou aos ingleses depois que eles anexaram os dois estados à Grã-Bretanha.

Thereupon one of the birds flew off the tree, and in his flight his wings had a tinkling sound like little bells, over to the boat where the man of God was seated; and, perching on the prow, it spread out its wings in token of gladness, and looked complacently towards St Brendan. Then the man of God, understanding from this that his prayer was granted, addressed the bird: ‘If you are a messenger from God, tell me whence have those birds come, and why this concourse of them here?’ The bird at once made answer: ‘We are partakers in the great ruin of the ancient enemy, having fallen, not by sin of our will or consent, but soon after our creation our ruin resulted from the fall of Lucifer and his followers. The Almighty God, however, who is righteous and true, has doomed us to this place, where we suffer no pain, and where we can partially see the Divine presence, but must remain apart from the spirits who stood faithful. We wander about the world, in the air, and earth, and sky, like the other spirits on their missions; but on festival days we take the shapes you see, abide here, and sing the praises of our Creator.


Mas onde foi que esses "espíritos" acabaram associados, explicitamente, com os "elfos"? Aí eu recorro ao livro do Prof. Shippey , the Road to Middle Earth, onde ele, complementando o comentário da fonte mais antiga achada pela Dimitra Fimi,esclarece:


This is not, for once, the Beowulf-poet, who took a strong line
on ylfe or elves, putting them into a list with 'ettens' and indeed
with 'orcs' - a very stern view of all non-human and unchristian
species. But at least one other English poet preceded Tolkien in
being less sure, the author of the legend of St Michael in The Early South English Legendary, written about 1250. Tolkien never mentions reading this, but it is unlikely that as a medievalist he did not. What the Middle English poet has to say, in essence,is that in the war between God and Satan for men's souls, there may perhaps be neutrals. In the War in Heaven not all the angels were whole-heartedly for God or for Lucifer. The ones who inclined toward the devils without actually joining them are accordingly confined in tempests till Doomsday, when they will go to Hell.Correspondingly, those who wavered towards God have been sent from Heaven to Earth, where 'they will be in a certain pain up to the end of the world, but at Doomsday they shall return to Heaven. Others are still in the Earthly Paradise, and in other places on Earth, doing their penance.' Both good and evil spirits come to Earth to protect or corrupt men, but these neutrals can be seen too:



And ofte in fourme of wommane: In many derne weye
grete compaygnie men i-seoth of heom: bope hoppie and
plei3e,Pat Eluene beoth i-cleopede: and ofte heo comiez to toune,And bi daye muche in wodes heo beoth: and bi ni3te ope hei3e dounes.Pat beoth pe wrechche gostes: Pat out of heuene weren i-nome,And manie of heom a-domesday: 3eot schullen to reste come.


And often men see great numbers of them, shaped like women,
dancing and sporting on many dark paths. These are called
Elves (my italics), and often they come to town, and by day they are usually in the woods, by night on high hills. Those are the wretched spirits that were taken from Heaven. And at Doomsday many of them shall still come to rest.




A Chegada dos Tuatha De Danaan em meio a nuvens provocadas por sua feitiçaria ou pelo incendio de seus barcos (ou ambos, como em Slaine, o Deus de Chifres na versao de Pat Mills

Então o texto é a Lenda de São Miguel, compilada no século XIII, bem posterior ao texto medieval contendo a história de São Brandão e incluída nesse tal aí (ahhh , como tudo é fácil hj em dia com a Internet, não é mesmo?)

http://en.wikipedia.org/wiki/South_English_Legendary

Vocês vêm que foi dai que Tolkien concebeu a idéia de que os Noldor caíram, não por seguirem Melkor, mas por não obedecerem aos Valar e repudiarem sua vassalagem. Em certo sentido, eles são mesmo "anjos caídos" por não terem tomado partido numa guerra de forma adequada contra o "Morgoth".

Entrevista com a Dimitra Fimi, a primeira especialista moderna a destacar de forma sistematica o debito de Tolkien para com os Tuatha de Danaan