terça-feira, 17 de novembro de 2009

Tolkien: "desnecessário dizer que não são celtas"



Balor do Olho Diabólico,Balor na Suile Nimhe em gaélico






E falando em copiar...





Tolkien uma vez disse:





Desnecessário dizer que eles [= os nomes] não são celtas! Nem o são os contos. Conheço coisas célticas (muitas delas em seus idiomas originais, irlandês e galês), e sinto por elas uma certa aversão: em grande parte por sua irracionalidade fundamental.Elas têm cores vivas, mas são como uma janela de vitrais quebrada cujos pedaços são reunidos mais uma vez sem forma. Elas de fato são "loucas" como seu leitor disse (...) .



Todo mundo conhece aquele ditado "quem desdenha quer comprar" né? É exatamente o caso aqui como a Verlyn Flieger e a Dimitra Fimi também pensam. Mas vamos fazer a coisa "celta" e conferir quanto dessa afirmação do Tolkien a respeito dos nomes do Silmarillion é verdadeira, só nos atendo à nomenclatura em si, para ser justos. Dêem só uma olhada na "listazinha" de nomes célticos mitológicos ( maioria) ou linguísticos que foram aproveitados por Tolkien junto com suas respectivas histórias conteúdos e significados em um grau ou outro.






Alguns pegos ipsis literis ou sutilmente modificados da língua ou da mitologia celta pra dar uma disfarçada na influência.Varios dos nomes foram apropriações fonéticas dos originais celtas diretas em forma e significado ( Nazg e Nasc) ou traduções do seu sentido original para a língua de Tolkien ( Airgetlam apelido de Nuada virando Celebrimbor por exemplo).




Melian, Meriadoc, halfling, hobbit, Finwë, Pelennor, Otherworld (referindo-se às Terras Imortais no poema de Eärendil no SdA)Avalónnë, Utumno, Beleriand/Broceliand, Bridhil (nome de Varda, que significa a exaltada,Aerin,Brithombar/Brithon, Danas, Araw, Tilion (traduzido como Horned One),Carn Dûn, Rhun, Amras,Morwen, Lamedon, Arwen, Iarwain, Nessa, Cerin, Macha, Mahtan,Elladan, Nam, Badhron, Gwendeling,Erech, Elfrith, Ar Feiniel (Dama Branca), Caradhras,Morwen Eledhwen,Olwë, Falmari,Enyd, Minas, Eriador, Púkel, Gil-Galad, Neithan, Cerca de Melian,Taur no Fuin e Mar nu Falmar, Sarn, Parth, Nazgûl (caso "inconsciente" admitido pelo Tolkien),Periannath,Red Eye,Edain, Govannen, Ered Luin, Laer, Doriath, Tirion,Teleri,Lórien, Annûn,Bard, Balin,Druédain, Gwindor, Leprawn, Balar,Tavros,Turin, Celebrimbor,Khamûl, Aiwendil,Dúnadan, Calenardhon, Rohan,Belegaer,Scatha, Taras, Ioreth, Garthurion,Faelivrin, Lothlann, Daeron, Red Book of Westmarch e , talvez, Tom ( o prenome do Tom Bombadil).

E isso é só pra ficar nos casos mais evidentes
Olhe só os originais celtas ( galeses, gaélicos, gauleses e bretões)

Melian, Meriadoc, halfling-hauflin, hobbit/habit, Finn, Pelinóre, Otherworld (referindo-se a várias terras paradisíacas algumas delas no Ocidente distante)Avalon, Antumnos(Anwnn ou Domnu), Brocéliande/Belerion, Brighid ( nome da deusa Brigite significando a Exaltada, Aeryn,Britons, Dana, Arawn, The Horned One,Carn Dûm (Fortaleza de rocha em céltico gaélico), Rhun, Anras, Morwen, Olwen, Awen-Arwenna-Arwyn,Loumedon e
Lovedon,Iar e Arwain, Iarvanel, Nessa, Cerin, Macha, Matan Muiremar,Ealadan, Nam, bodhrán, Gwendolyn, Erec, Alfrith, Guinever(The White Fay or White Ghost),Morgana Le Fay,Carados, Fomoire,Enid, Dinas, Erin, Púca, Galahad, Nechtan, Cerca de Merlin, Aurvegne/Averoigne, Tir fo Thuinn ( tem o mesmo significado de Mar Nu Falmar e a fonética lembra Taur Nu Fuin), Sarn, Parth, Nasc (Anel em Gaélico),Peniarth, Lake of the Red Eye(Lough Derg) and Evil Eye, Edain , Govannon, Spear Luin, Laeg, Dorath, tirion, Teleri, Lorie, Anwnn ( lê-se Annûn também),bard, Balin,Druidan,Gwion Bach, Leprechaun,Balor,Tarvos,Tuireann Celebrimbor é Mão de Prata, tradução do celta Airgetlamm, Camulus, Awenyddion,Dùn Éideann e/ou Dinadan, Caledonia, Rohan, Belatucadros, Tara,Scathach, Iorweth, Arturiano, Faylinn, Lochlann, Daron, Red Book of Hergest e Tonn.


Mas, por que é que isso acontecia? Como e por quê Tolkien poderia ter interesse em disfarçar uma fonte tão proeminente para seu trabalho e, ainda assim, acabar deixando uma evidência palpável, como uma " mensagem numa garrafa" em código em uma lista de mais de oitenta nomes onde a inspiração é fonética e mitológica para mais de noventa por cento dos casos?

Para começo de conversa, precisamos lembrar que todos os estudiosos mais bem informados sobre as idiossincrasias do caráter de Tolkien destacavam o que , inclusive, levou ao interessante neologismo "contrasistência" (contradição + consistência), Tolkien era, como foi descrito por Clyde Kilby, "consistentemente contraditório" e um "homem de antíteses" como disse o seu biógrafo, Humphrey Carpenter.







E,se era assim, se as contradições eram tão evidentes , como é que os estudiosos tolkienianos que estão em atividade desde os anos sessenta não se deram conta disso há mais tempo? Uma pergunta muito boa e a resposta é:"bairrismo cultural", poder econômico e rivalidades nacionalistas com fundo político e religioso . Para usar a própria expressão cunhada por T.A.Shippey, a mesma "filologia da inveja" que foi a força motriz pra Tolkien escrever seus mitos.

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Agreed. I think some of Tolkien's work was escapist, a kind of formulation of a grand mythic past which England, unlike say Greece of Rome, never had. Unfortunately he just didn't accept his Celtic
Heritage. Irish people have always had a grand mythic past, the Táin and
Cú Chulainn and Fianna Cycles, Diarmuid and Gráinne, etc, etc.


Fuck it, we *invented* the land of the *ever young* where it was
perilous for mortals to set foot. Viewed in this context, Tolkien has fallen victim to the regime of the conquering Dane/Angle/Saxon/Norman who supresses the existing rich traditions of the country they invade then invent their own.

Irish people have never had these problems of English people. England has always been a culture overlain, one culture on top of another until its quest for identity becomes confused. Ireland IMO, and to some degree Scotland and Wales have always subverted the incoming culture to Irish attitudes. The basic indomitability of the people and the land itself lends itself to this suborning. Ulster Unionists, being descendants of Scots planters, trading on English largesse, combine the worst of both worlds. An indomitable people: uprooted, trading on a culture without roots or identity with only their regard for their sovereign holding them together, forever divorced from the indigenous land and culture, never belonging, despising the southern Irish whilst at the same time forgetting that more of them died in the two World Wars fighting for the English sovereign than did Unionists.


Para que fique claro a dramática extensão desse denial de Tolkien

Elves is an English word, but the nature and history of the peoples so-called in my books has little or nothing to do with the European traditions about Elves or fairies.


Aí Tolkien, claramente, dá uma de desentendido. Os Tuatha Dé Danaan irlandeses se tornaram os Sidhe do folclore gaélico e os sidhe são o nome local que se dá para o povo das fadas. Obviamente Tolkien estava ciente desse fato mas não o reconhece em passagens como a desta carta.

Vemos então que o comentário de Tolkien de que a natureza e a história de seus elfos têm pouco ou nada a ver com as tradições sobre fadas ou elfos de povos europeus, no mínimo, é uma tremenda extrapolação. É dar um valor desmedido ao termo "fairy" num sentido muito específico e ignorar a importância de seus análogos, ficando fiel à letra e traindo o espírito da palavra.

E isso é uma atitude que ele próprio criticou ao falar que " contos de fadas" como ele os entendia, inclusive, não precisavam incluir as fadas propriamente ditas já que o essencial é o mundo onde as "fadas" habitam e o tipo de acontecimento maravilhoso que acontece lá. E foi , ironicamente nesse mesmo contexto que ele citou o fato de que no folclore celta os shee ( ou sidhe)desempenhavam o papel das fadas, na nota número cinco do seu ensaio sobre os Contos de Fadas. Ele , inclusive, disse, no mesmo texto, que os contos de fadas irlandeses centrados nos shee são os únicos que podem ser chamados contos de fadas, ou seja, protagonizados por esses seres propriamente ditos, se nós formos usar a definição restrita do termo que sugeria que todo conto de fadas devia conter aparições dos povos feéricos.

Now, though I have only touched (wholly inadequately) on elves and fairies, I must turn back; for I have digressed from my proper theme: fairy-stories. I said the sense “stories about fairies” was too narrow5.


5 Except in special cases such as collections of Welsh or Gaelic tales. In these the stories about the “Fair Family” or the Shee-folk are sometimes distinguished as “fairy-tales” from “folk-tales” concerning other marvels. In this use “fairytales” or “fairy-lore” are usually short accounts of the appearances of “fairies” or their intrusions upon the affairs of men. But this distinction is a product of translation.
.



Pintura de John Duncan, ilustrando os Tuatha dé Danaan

Aqui vai um sumário de algumas das similaridades entre os Noldor e os Tuatha Dé Danaan, algumas poucas delas já eram comentadas em 1969 por Lin Carter, até onde eu sei ele foi o primeiro a perceber as similaridades e comentar o fato em livro. Com certeza se ele tivesse atualizado o texto do livro depois da publicação do Silmarillion em 1977 teria deixado tudo às claras há muito mais tempo. Aliás o simples fato dele não tê-lo feito sugere alguma coisa errada nisso daí. Isso e a súbita fall from grace do autor no fim dos anos setenta.Mas isso é outra história que envolve drogas e a ascensão dos Tolkien clones como Terry Brooks e David Eddings

Os Tuatha Dé Danaan, assim como os elfos Noldor de Tolkien, eram detentores de grande poder mágico, eram "imortais" mas podiam morrer por desgosto ou ferimento físico superior ao seu dom de regeneração, tinham uma pátria paradisíaca além do Oceano Ocidental ( País do Verão, Tir na Nog ou Hy Brazil), exatamente igual a Aman, reencarnavam do mesmo modo que os elfos de Tolkien reencarnavam no começo do Legendarium, viviam entre "dois Mundos" como o Glorfindel depois de reencarnado e trazido de volta à Terra Média, chegaram à terra da Irlanda e enfrentaram ou entraram em acordo com seres "aparentados" com eles próprios que tinham características monstruosas ou "menos luminosas" ( os Firbolg, paralelos aos Moriquendi, elfos cinzentos e os Fomoire, paralelos aos Orcs.

Vale ressaltar que o nome dos Fomoire ( "submarinos") lembra na fonética e no significado um nome alternativo dos Teleri (também nome próprio celta de um personagem menor do Mabinogion), Falmari, "elfos das ondas"). Os Tuatha tinham como base de operações do seu Grande Rei , mesmo título dado ao Rei Supremo dos Noldor ( High King) que governava os outros reis menores, um monte chamado Tara, lembrando o nome da habitação original daquele que seria High King dos Noldor mais tarde, o monte Taras de Turgon em Vinyamar.

Também um dos Tuatha, Nuada "Mão de Prata" ( "coincidentemente" o mesmo significado de Celebrimbor) perdeu uma mão na guerra com os Firbolg e abdicou do trono em favor de Bres, o formoso, assim como Maedhros perdeu uma mão e abdicou da soberania dos Noldor em prol de seu tio , Fingolfin. Também os Tuatha Dé Danan queimaram os seus barcos quando chegaram na Irlanda assim como os Noldor queimaram os deles , apenas por um motivo diferenciado da mesquinharia de Fëanor ( mas a traição e o medo de deserção também eram a explicação).



E o pior é que a lista de paralelos entre os Tuatha e os Noldor feita acima não exaure as similaridades , tem muito mais de onde elas vieram e só agora estão sendo devidamente estudadas mesmo em inglês. As comparações com o mito celta até, no meu entender, dado o tamanho das correspondências,deveriam ser "lugar comum" em um grau muito maior do que , por exemplo , ocorre com a mitologia clássica, mas como as pessoas têm, por enquanto, uma familiaridade muito menor com ele ainda vai levar, provavelmente, décadas para isso mudar. Mas a tendência atual é essa porque os materiais celtas se tornaram mais fáceis de achar com a popularização da Internet onde livros clássicos sobre o tema com poucas reedições caíram no domínio público.

O mito celta, na verdade, é hipercomplexo mesmo, tão complexo que a falta de consenso dos estudiosos já começa com a grafia dos nomes, pra não falar na pronúncia deles onde até os falantes das línguas gaélica e galesa parecem discordar às vezes (muita variação dialetal).

Só pra confirmar isso, o fato de que os guias de pronúncia são mutuamente contraditórios olha só a opinião da Lady Charlote Guest

I have not followed a fixed rule as to the spelling of Irish names: I have taken the spelling I give from various good authorities, but they vary so much that, complete accuracy not being easy, I sometimes look to custom and convenience. I use, for instance, "Slieve" for "Sliabh", because it comes so often, and a mispronunciation would spoil so many names. I have treated "Inbhir" (a river mouth) in the same way, spelling it "Inver", and even adopting it as an English word, because it is so useful. The forty scholars of the New School of Old Irish will do us good service if they work at the question both of spelling and of pronunciation of the old names and settle them as far as is possible.




Na verdade, a mitologia "celta" engloba pelo menos quatro ou cinco mitologias distintas e aparentadas e , no caso da irlandesa, uma mitologia subdividida em quatro fases distintas com fontes e "clima" diferenciados, umas eruditas e clericais, outras populares e folclóricas.

Como bem explicou Cláudio Quintino no seu site

À primeira vista, a amplitude da mitologia celta assusta. São incontáveis (literalmente) deuses e deusas com nomes complicados, grafias estranhas, lendas desencontradas e atributos variáveis. Pudera: os mitos e lendas celtas de terras tão distantes quanto o sul da França e a Escócia, pertencentes a períodos tão diferentes quanto a Idade do Ferro e o período medieval, todos eles foram agrupados sob o rótulo “Mitologia Celta”. A confusão é imediata: como conceber uma mitologia que nos apresente seres poderosos como Taranis, Teutatis e Esus, o trio de poderosos deuses da Gália celta descritos pelos escritores clássicos ao lado dos leprechauns do folclore irlandês?

A verdade é que, de fato, eles não pertencem a uma mesma mitologia: as diferenças culturais das terras e épocas em que tais mitos se desenvolvem são tantas e tamanhas que só mesmo muita dedicação, bom senso e boa vontade podem proporcionar uma compreensão mais profunda dos símbolos desses seres divinos. Símbolos, mensagens, significados: todo mito traz em seu bojo uma mensagem transformadora, captada não pela mente racional, mas pelo subconsciente, pela alma de quem lê ou ouve o relato.



Os patriotas irlandeses católicos tinham se aproveitado da queda da hegemonia britânica e fizeram a independência do país em 1921 deixando os remanescentes protestantes fiéis ao Commonwealth separados na Irlanda do Norte. Pensem no impacto psicológico ( para não falar das repercussões econômicas e sociais) disso no inglês médio. Foi como se a separação da Irlanda marcasse o fim de uma era e a ascenção definitiva dos EUA como potência global.

É por isso que, quando Tolkien escreveu a tal carta repudiando a influência celta, isso era o "politicamente correto" na época, ainda mais considerando que ele era católico e já olhado com uma certa "suspeita" no próprio país e , principalmente, quando ele era mesmo anti-anglicano( na mesma proporção em que os seus conterrâneos tendiam a ser anti-católicos, inclusive C.S. Lewis que, para desgosto de Tolkien, voltou a ser um "protestante da Irlanda do Norte" ao se recristianizar.

Tolkien não podia admitir a influência celta naquele momento histórico em particular porque fazê-lo, imediatamente, atrairia suspeitas no sentido de considerá-lo um simpatizante "papista" dos Irlandeses do sul católico.Como, inclusive,numa certa época, ele passou a dar aulas lá, essa desconfiança viraria certeza e, assim sendo, reconhecer o débito céltico da mitologia do Silmarillion implicaria em, praticamente, erradicar a possibilidade de publicar o livro tal como tinha sido concebido.




John Duncan, desta vez pinta os Fomoiré ( pintura de 1912),me parece que nessa ilustração estão protótipos das imagens dos Nazgûl e de Gollum

Reparem na similaridade do "Cavaleiro Pálido" dos Fomoire representado acima com o Encapuzado ( Hooded One) do comic americano Bone de Jeff Smith e , na tabela (ou seria o contrário) com os Nazgûl de Tolkien que, assim como o Encapuzado também são mortos-vivos "atados" a um Senhor das Trevas. O nome nasc que compõe o nome dos Espectros do Anel que Tolkien considerou um empréstimo inconsciente do gaélico significa anel mas também vínculo com o sentido de jugo ou grilhão.





Se valendo disso,(que o "inimigo" está dividido para "conquistá-lo") diversas pessoas no mundo "anglo-saxão" se aproveitaram pra ir à forra com a "ressaca" pela Independência da Irlanda logo depois da primeira Guerra e o subsequente mal-estar e rivalidade "guerra fria" resultante dos conflitos internos provocados pela facção católica republicana e nacionalista da Irlanda do Norte que queria ver o país reunificado com a Irlanda do Sul papista, o que deu em conflito de guerrilhas armadas que raivou até o fim da década passada.

Isso, óbvio, afetou a Inglaterra, a Irlanda, o país de Gales e a Escócia em maior ou menor grau.

E vale lembrar que houve inclusive desentendimentos importantes e sérios no meio da Segunda Guerra onde a Irlanda manteve uma fachada de neutralidade politicamente incorreta.

Então, os americanos e ingleses "abafaram" a influência da mitologia céltica sobre eles e sobre tudo o que eles faziam porque ela tinha sido usada pra promover o sentimento patriótico da Irlanda e do pais de Gales durante o movimento literário chamado Renascimento Céltico.Se havia alguma divulgação davam destaque só pra parte "galesa" ( Chronicles of Prydain de Lloyd Alexander,Tetralogia do Mabinogion(iniciada em 1936, de Evangeline Walton,ambos feitos por americanos.

Na Inglaterra, Alan Garner e Susan Cooper usaram, principalmente, a vertente arturiana, dando uma disfarçada aqui e ali quando usavam coisas irlandesas)e repudiavam ou ocultavam ( ou foram forçados editorialmente a ocultar)a "gaélica" como Tolkien fez.

No caso do Alan Garner, isso parece ter feito com que ele tivesse abortado a idéia de concluir a saga iniciada com a Pedra Encantada de Brisingamen,já que, no segundo livro, fica claro que o rei messiânico adormecido não era Arthur como muitos poderiam presumir, mas, sim, o seu análogo irlandês, Finn. Isso colocou, se me perdoam o trocadilho, um "fim" na sua idéia de concluir a saga elaborando a respeito dessa revelação ocorrida na segunda parte, Lua de Gomrath, porque, muito provavelmente, os ingleses viraram pra ele e disseram que ele não podia conservar esse elemento na planejada sequência, que ele era obrigado a mudar o nome do personagem que só era associado a outros nomes, também gaélicos, como Camha e Moriath ( Moriath, hein? huuuummmm).

E, com isso, não só o próprio Tolkien negava a influência celta em geral e a gaélica em particular, como, também, os americanos e ingleses, por uma conspiração silenciosa, fingiam acreditar( e, em grande parte, fingem até hoje) uma vez que, comparando, seria o mesmo mal-estar se descobríssemos que os argentinos inventaram o futebol e que Pelé e Zico eram imigrados de Buenos Aires.

Até os anos 30 seria estranho para um inglês ou americano fazer histórias com divindades greco-romanas como as que passaram a pipocar a torto e a direito nos EUA. Deusa Vênus nos comics da Marvel, Wonder Woman na DC, Mercúrio, Zeus, Atlas e Hércules nas histórias do Shazam, o Capitão Marvel, pra não falar nos filmes ( os clássicos de Ray Harryhausen e os diversos Hércules), séries animadas e o escambau.

Um exemplo que ilustra perfeitamente bem essa verdade. Essa pintura reproduzida abaixo foi feita por J.C. Leyendecker para uma revista americana em 1907 ilustrando um artigo escrito pelo futuro presidente Franklin Delano Roosevelt.Creio que foi por isso que ela foi escolhida como o modelo para a primeira capa da revista da Wonder Woman enfrentando os nazistas. Uma clara mostra de inspiração céltica disfarçada revertida a um modelo clássico greco-romano e usado como instigador nacionalista na época da Segunda Guerra.



Cuchulain e seu auriga Laeg

Vejam a semelhança com a capa de Amazons Attack 01, nem um pouco parecidas né?



Como já dito já é uma homenagem pra primeira capa da revista da Wonder Woman , tradição essa iniciada por Alex Ross em Kingdom Come











Estátua de Cuchulain e seu filho


Odin pranteia seu filho Thor



Se tivessem mantido o padrão do fim do século 19 seria muito mais crível se esperar que um falante de língua inglesa como Carl Barks (quadrinista do Tio Patinhas) fizesse histórias em quadrinhos onde ele, junto com Donald e os sobrinhos, saísse atrás de tesouros celtas ( Lia Fail, Caliburn-Excalibur, Caldeirão da Vida, Santo Graal, Lança de Lugh) do que em "Busca do Velocino de Ouro" ou da Pedra Filosofal encontrada no Labirinto de Creta onde Teseu peitou o Minotauro.

Até porque, diga-se de passagem, pesquisando aqui não achei nenhuma história de Patinhas e sobrinhos onde eles fossem atrás de um artefato celta, o que é um absurdo, sendo a mitologia celta, praticamente , a mitologia da Caça ao Tesouro do jeito que é.

A história dos filhos de Tuirenn
, Culhwch e Olwen, Os espólios de Anwnn, além de toda a Busca do Santo Graal são todos, todos histórias de "Caça ao Tesouro" de importância capital para a mitologia toda.





Carl Barks chegou a fazer uma história onde apareciam os panteões greco-romano e nórdico Mistério Mítico Thor, Odin, Hercules, Vulcano davam as caras mas nem sequer ,alguma vez, se usou um nome celta como Nudd, Lugh , Taranis ou Cuchulain. Isso muito embora Zeus e Odin fossem nomes diferentes dados ao mesmo individuo na história do Barks

Esse "espírito de época" neo-neoclássico" era uma reação ao "romantismo" céltico. Foi só depois do sucesso do SdA que começaram a aparecer adaptações "nórdicas" nas outras mídias, começando com a própria história do Barks de 1961 e o Thor ( Lee e Kirby) em1962 e depois com os Novos Deuses de Jack Kirby, o que deu uma certa cortada nessa tendência classicista.

Podemos até dizer que Tolkien e o Senhor dos Anéis publicado em 54-55 ( junto com a Espada Quebrada), realmente resgataram a mitologia nórdica para o imaginário pop da cultura ocidental depois dela ter sido cooptada pelos Nazistas. Nesse sentido o Senhor dos Anéis foi mesmo um antídoto para o mau uso que Hitler havia feito do Anel do Nibelungo.



Então passou a vigorar uma onda de neoromantismo nórdico ( por falta de um termo melhor) onde a mitologia celta sempre dava uma espreitadinha pelas beiradas (como deu no Senhor dos Anéis em todo o plot de Aragorn , em Lothlórien e na história de Rohan ): o martelo de Thor da Marvel imitava a escrita da Sword in the Stone arturiana e céltica e o Scafloc da Espada Quebrada de Poul Anderson(livro de 1954, contemporêneo do SdA, era auxiliado por Manannan Mac Lir, deus celta dos Tuatha Dé Danaan irlandeses.

Claro que esse "romantismo fantástico" seguia a tendência tolkieniana, uma "sanitização" do "tosco", uma ênfase no belo e não nos aspectos cruentos de ambas as sociedades, céltica e teutônica. Assim, Odin, na Marvel, estava muito mais pra um Gandalf , rabugento, poderoso e bem-intencionado do que para sua contraparte wagneriana /nórdica, cruel, autoritário e farisaico.




Who so Pulleth Out This Sword of this Stone and Anvil, is Rightwise Ruler Born of England.








Até mesmo Star Wars, além de chupinhar Tolkien ( ao lado de Castaneda, Flash Gordon, Lensmen e etc), usava "coisas célticas" como acabei de mostrar aqui

O Michael Moorcock também, como Tolkien , se abeberou de fontes célticas e arturianas e deu uma mascarada nelas não só no seu Elric mas também em Corum "Silverhand" que tem o mesmo significado de Celebrimbor ( e, me arrisco a dizer, uma série de pontos similares também).

Esse estado de coisas sóestá mudando agora capitaneado com o revival de literatura arturiana a partir dos anos oitenta.De lá pra cá, os autores de fantasia começaram a usar cada vez mais a mitologia celta como fonte de maneira explícita e contrapartes ficcionais celtas começaram a aparecer pela primeira vez nos universos de quadrinhos da DC e da Marvel.

Vejam quantos trabalhos acadêmicos que, tangencialmente, conectam cultura celta a Tolkien estão sendo feitos em uma faculdade em Portugal.

Até como símbolo disso o herdeiro de Carl Barks, o Don Rosa, já fez uma história onde Donald topava com o Once and Future King, o rei Arthur, embora diga-se, ele não tenha dado ao rei um tratamento muito elogioso, como seria de se esperar de um "ianque na corte do rei Arthur"

Então, à medida, que isso acontecia nas duas últimas décadas, as pessoas começaram a olhar pra mitologia de Tolkien e a ver os paralelos . Um Bernard Cornwell faz uma trilogia do rei Arthur dando destaque pra "Meriadoc", "Druidan", e "Iorweth", as pessoas descobrem que Tolkien ,afinal não inventou os nomes Hobbit e Halfling e que ambos têm influência celta e aí , de repente,começaram a sacar que tem alguma coisa errada em se levar ao pé da letra a negativa de Tolkien de que, pra início de conversa os "nomes não são celtas e que nem o eram as histórias".


Lady Haleth
Not that one, the other one.

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I've been reading The Winter King and really enjoying the new perspective on the Arthur legend. It's such a fresh approach and totally believable as a novelization of actual historical events. (And it is easy to see how the oral telling of the stories could be altered over the centuries to end up as the whole Camelot thing.) Anyway, the thing I wanted to point out was the frequent popping up of Tolkien names... Druadan, Merriadoc, Edain... and I cannot help but read Ioreth for Iorweth. I wonder if Tolkien and Cornwell used actual names from history, or if the good Professor made them up and Cornwell borrowed them?












Lugh by Mickie Mueller


Cuchulain da Marvel, arte de Colleen Doran (1993)

Cuchulain, Gárgulas da Disney(1995)



E o pessoal que fez os filmes parece pesquisar e usar essas referências a torto e a direito.

E pagaram o preço sendo violentamente criticados por repórteres britânicos que repudiam o celta e ,especialmente, o que é evocativo do "irlandês" nos filmes.

Next, he would have spent a week chewing a carpet about the innumerable liberties taken with his storyline. Why, he would have asked in despair, has his quintessentially English shire been turned into an outstation of Riverdance? "I do know Celtic things and feel for them a certain distaste. They are in fact 'mad'," he wrote in an untypically snotty letter in 1937. So why do the hobbits do Irish jigs at Bilbo Baggins' birthday party?

Why are two of the hobbits in the fellowship, Merry and Pippin, cast as prat-falling Irish clowns? Why does Howard Shore's music break into repeated Irish warbling? Because, as he would dolefully have guessed, James Cameron's Titanic proved that dollops of Irishry play well with the US box office.

Yet Ireland's belated revenge on the author is only part of the problem. Why are the industrious hobbits shown cultivating fields of oilseed rape and sweetcorn - crops which postdate both Sarehole and the Shire? Why do massed choirs break into manic Dies Irae-type chanting every time the Nahzgul, the dark lord Sauron's dreaded riders, appear? Because this has been a horror-film cliche ever since The Exorcist and The Omen series; and because the director Peter Jackson's dark horsemen aren't in themselves very scary. They and their steeds were more frighteningly done in the 1978 cartoon version.


Os responsáveis pelos filmes, inclusive, parecem ter percebido a relação próxima entre o Balrog de Mória e o Chernobog de Fantasia ( John Howe um dos artistas conceituais contratados pelo PJ já havia usado a imagem de Chernabog como modelo para seus balrogs nas capas), e , outrossim, pelo que consta, usaram a peregrinação do segmento do Ave Maria para fazer a comitiva élfica que iria acompanhar Arwen até os portos cinzentos, andando silentemente por uma "catedral" de árvores.

O paralelo retratado abaixo parece mostrar que tipo de associação os colaboradores de Peter Jackson fizeram


Arwen no mausoléu de Aragorn


Guinevere e Lancelot na tumba de Arthur se encontram pela última vez



Vestido de luto de Arwen , comparar com o hábito de freira de Guinevere



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